Se o cenário epidemiológico de Wuhan pode ser parâmetro para análise, dentro de quatro, cinco semanas talvez, haverá relaxamento da quarentena em alguns grades centros urbanos do país, São Paulo entre eles, ainda que o total de mortos venha a subir muito antes disso.
A partir de então, por muitos anos, a geração que teve o trágico privilégio de viver a primeira grande pandemia do mundo globalizado contará aos amigos, aos filhos e aos netos como foram esses dias de confinamento e o que cada um fez ao ser arrancado de sua rotina e aconselhado a manter-se em casa, senão todo o tempo, pelo menos nas horas que dedicaria aos passeios, aos restaurantes e ao esporte.
Uma parcela menor da população lembrará que, contra a recomendação, esteve em passeatas pedindo intervenção militar no país, negando a democracia, mitificando um mentecapto e insultando aqueles que, mesmo marqueteiramente, tomaram medidas para proteger os sistemas de saúde, os mais frágeis e também os manifestantes.
Mas não é provável que os carreatistas admitam esse vexame futuramente. Ao final do regime militar, nos anos 1980, era raro encontrar quem reconhecesse ter rodeado quartéis duas décadas antes.
Um grupo um pouco maior de brasileiros terá na lembrança sua ativa atuação como polemista de sofá, recordando como, de celular nas mãos, fez campanha em favor de medicamentos pouco testados, repassou todo tipo de bobagem recebida nas redes sociais, divulgou piadas racistas ou militou pela reabertura da academia ou da piscina do condomínio.
Nessa turma incluem-se os que, num gesto de rebelião contra a notícia e os noticiários, prestigiou a mídia bolsonarista e passou horas vendo declarações do presidente a entrevistadores do quilate de um Datena e de um Ratinho.
Essa legião também terá pouco do que se orgulhar quando os mortos pela Covid-19 estiverem todos enterrados. E há até chance de que o campeão da caminhada na direção do isolamento, Jair Bolsonaro, tenha que inventar histórias para descrever como, assolado pelos efeitos colaterais da epidemia, cometeu um suicídio político comparável aos que abateram antes Jânio Quadros, Fernando Collor e Dilma Roussef, para ficar em poucos exemplos de trânsito na contramão da história.
Descontados ainda os que, na outra ponta, gastaram tempo e banda larga para tentar recuperar a imagem de políticos atolados nas consequências de suas próprias decisões, haverá, porém, na longa ressaca pós-epidêmica que espera o Brasil e o mundo, uma grande maioria com boas histórias para contar. Esses, que terão resistido não só à doença e mas também aos politicamente doentes, estão agora envolvidos na maior mobilização de solidariedade social da história.
Aqui, sobram notícias sobre gente fazendo compras no comércio de bairro para salvar os pequenos empresários da falência, adquirindo suas máscaras de grupos que distribuem outras de graça para a população carente, doando itens de consumo e dinheiro para campanhas que levam gêneros de primeira necessidade e de higiene para comunidades que vivem na miséria.
Numa situação difícil de se imaginar há alguns meses, até o pagamento de taxas bancárias tem alguma relação com movimento solidário, quando algumas instituições decidem fazer doações de parte de seus lucros para compras de equipamentos médicos e de proteção de agentes de saúde em valores inéditos.
Do mesmo modo, pedir comida num serviço de delivery pode gerar contribuições para a compra de cestas básicas por uma ONG. Telejornais têm agora uma seção fixa para documentar ações solidárias praticadas por pessoas físicas e jurídicas.
No mundo, a urgência sanitária abriu cofres em todas parte. Empresas chinesas doam dinheiro e suprimentos para habitantes da África, da Itália e dos Estados Unidos. Milionários americanos contribuem com R$ 100 milhões para pesquisas em laboratórios na China. O empresário mais rico de Hong Kong deu a mesma quantia para complementar gastos com despesas médicas em Wuhan.
Um bilionário italiano doou mais de 1 milhão de euros para investimentos em emergências de saúde e pôs suas fábricas de roupas para produzir paramentos hospitalares. Homens que fizeram fortuna com empresas de tecnologia entregam a instituições de pesquisas médicas verbas equivalentes ao que elas despenderam em anos de trabalho.
Um deles pôs a disposição de um fundo contra o coronavírus U$ 1,2 bilhão, um terço do que acumulou ao longo da vida. O dono da maior fortuna da Índia entregou US$ 66 milhões para o combate à pandemia. O investidor mais invejado do mundo está doando mais de 2 milhões de euros para ações em cidades da Europa.
Todos os envolvidos nesse esforço planetário terão história edificantes para narrar mais adiante, mas quem analisa a questão da desigualdade no Brasil e no mundo adverte para a necessidade de extrair desse mutirão emergencial uma mudança consistente nos padrões de concentração da riqueza no planeta. O insuspeito banqueiro brasileiro Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, fala há tempos sobre essa prioridade aqui no país.
Na Espanha, o economista Luiz Ayla, da Universidade Rei Juan Carlos, publicou recentemente artigo tratando da urgência de completar naquele país a implementação do programa de renda mínima, como já existe em outras noções europeias. O CEO da Tesla, Chris Hughes, e o economista Angus Deaton, Nobel de Economia de 2015, entre muitos outros, estão há anos envolvidos na defesa de um programa de renda mínima universal.
A redução da desigualdade é um 17 pilares do “Momento de Ação Global”, que a ONU promove desde 2015. A pandemia e a semiparalisação da economia mundial que ela acabou por determinar são novidades que podem ter criado a oportunidade para pôr essa boa intenção num novo patamar, com a institucionalização global de políticas nesse sentido.
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Mas isso depende de que o clima de mobilização social sobreviva ao momento e que a retomada, que se espera, venha com novo foco sobre questões de saúde, educação, tributação justa, criação de renda e abertura de oportunidades.
Do contrário, como acredita o professor de Harvard Dani Rodrik, autor do livro Straight talk on trade: ideas for a sane world economy (Uma discussão direta sobre comercio: ideias para uma economia mundial saudável – em tradução livre), toda a tempestade terá servido apenas para consolidar o chamado “viés de confirmação”, a tese segundo a qual as crises levam apenas à reafirmação de preconceitos, como as dos polemistas de sofá, e de ideias autoritárias, como as dos carreatistas de porta de quartel.
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