{"id":36868,"date":"2023-02-26T15:21:43","date_gmt":"2023-02-26T18:21:43","guid":{"rendered":"https:\/\/wiy.com.br\/noticias\/quem-e-nabhan-garcia-o-todo-poderoso-secretario-fundiario-de-bolsonaro\/"},"modified":"2019-11-10T09:59:34","modified_gmt":"2019-11-10T11:59:34","slug":"quem-e-nabhan-garcia-o-todo-poderoso-secretario-fundiario-de-bolsonaro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wiy.com.br\/noticias\/quem-e-nabhan-garcia-o-todo-poderoso-secretario-fundiario-de-bolsonaro\/","title":{"rendered":"Quem \u00e9 Nabhan Garcia, o todo-poderoso secret\u00e1rio fundi\u00e1rio de Bolsonaro"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<p>Homem de confian\u00e7a do presidente <strong><a href=\"https:\/\/exame.abril.com.br\/noticias-sobre\/jair-bolsonaro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jair Bolsonaro<\/a><\/strong> na execu\u00e7\u00e3o de miss\u00f5es voltadas para o meio rural, em dez meses no cargo o secret\u00e1rio nacional de Assuntos Fundi\u00e1rios, Luiz Antonio Nabhan Garcia, passou por cima de ministros, derrubou dois generais e ajudou a dar forma \u00e0 ret\u00f3rica governista contra ambientalistas e indigenistas. Seu advers\u00e1rio da vez s\u00e3o os sem-terra. \u201cEssa reforma agr\u00e1ria dos \u00faltimos 30 ou 40 anos foi um desservi\u00e7o ao pa\u00eds. Ela tem de ser revista, precisa ser revista\u201d, disse o secret\u00e1rio em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia P\u00fablica.<\/p>\n<p>\u201cNesse governo o MST \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o criminosa que invade propriedades. Quem comete ato il\u00edcito, fora da lei, \u00e9 organiza\u00e7\u00e3o criminosa. Vou defender invasor de propriedade? A lei diz que se invadir \u00e9 crime, fora da lei\u201d, vocifera o secret\u00e1rio que, h\u00e1 quase um ano no cargo n\u00e3o recebeu (e faz quest\u00e3o de frisar que n\u00e3o receber\u00e1) nenhuma lideran\u00e7a do movimento. Desde sua funda\u00e7\u00e3o, em 1984, o MST \u00e9 um dos interlocutores do Incra.<\/p>\n<p>A meta de Nabhan Garcia \u00e9 implementar a regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria autodeclarada, ou seja, feita pelos pr\u00f3prios ocupantes da terra. \u00c9 assim que o governo pretende titular 600 mil propriedades de at\u00e9 2.500 hectares na Amaz\u00f4nia Legal. A inten\u00e7\u00e3o \u00e9 ocupar o que o governo v\u00ea como vazios demogr\u00e1ficos com a l\u00f3gica da integra\u00e7\u00e3o nacional da ditadura: \u201cO que deu muito certo no Brasil foi na d\u00e9cada de 70, quando os governos [militares] fizeram uma coloniza\u00e7\u00e3o agr\u00e1ria dando oportunidade para aquele que tinha voca\u00e7\u00e3o\u201d, diz Nabhan.<\/p>\n<p>O governo deve enviar uma medida provis\u00f3ria ao Congresso com a proposta de regulariza\u00e7\u00e3o. H\u00e1 32 milh\u00f5es de hectares na Amaz\u00f4nia em situa\u00e7\u00e3o indefinida (sem escritura), al\u00e9m de sobreposi\u00e7\u00e3o de fazendas com terras ind\u00edgenas, com \u00e1reas de prote\u00e7\u00e3o ambiental ou com terras p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Na vis\u00e3o de especialistas, a regulariza\u00e7\u00e3o \u00e9 parte de uma estrat\u00e9gia geopol\u00edtica para a fronteira norte. \u201cO que est\u00e1 em curso \u00e9 um novo ciclo de ocupa\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia, com possibilidade de est\u00edmulo \u00e0 migra\u00e7\u00e3o de novas levas de agricultores para a regi\u00e3o\u201d, diz o agr\u00f4nomo e perito agr\u00e1rio federal Deodato do Nascimento Aquino, que acompanha os processos de regulariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com aparente aval do presidente da Rep\u00fablica, o secret\u00e1rio adotou um estilo agressivo para implementar esse projeto, removendo aqueles que considera obst\u00e1culos para sua concretiza\u00e7\u00e3o. No in\u00edcio de junho, ele aconselhou Bolsonaro a demitir o general Franklimberg de Freitas da presid\u00eancia da <strong><a href=\"https:\/\/exame.abril.com.br\/noticias-sobre\/funai\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Funai<\/a><\/strong> e foi atendido. H\u00e1 duas semanas, repetiu a press\u00e3o e Bolsonaro exonerou o general Jo\u00e3o Carlos Jesus Corr\u00eaa da presid\u00eancia do Incra, passando por cima da ministra da Agricultura, Tereza Cristina. Em entrevista \u00e0 P\u00fablica, Nabhan Garcia comparou as demiss\u00f5es com a troca de um jogador num campeonato ou numa empresa, quando um funcion\u00e1rio \u201c\u00e9 substitu\u00eddo por n\u00e3o corresponder\u201d ao que o patr\u00e3o pede. \u201c\u00c9 isso que est\u00e1 sendo feito. Quem exonera \u00e9 o presidente\u201d, afirma.<\/p>\n<h3>Curr\u00edculo magro<\/h3>\n<p>Para quem demonstra tanta for\u00e7a, Nabhan Garcia, 61 anos, tem um curr\u00edculo magro: registra apenas dois cursos t\u00e9cnicos, um na \u00e1rea de agropecu\u00e1ria e outro de zootecnia. Pecuarista e agricultor, com fazendas em S\u00e3o Paulo e Mato Grosso do Sul, ele se tornou conhecido pelos embates travados com os sem-terra no Pontal do Paranapanema, no oeste paulista, entre os anos de 1990 e 2010. Foi nesse per\u00edodo que refundou a Uni\u00e3o Democr\u00e1tica Ruralista (UDR), que presidiu de 2012 at\u00e9 se licenciar para assumir a Secretaria de Assuntos Fundi\u00e1rios, em janeiro deste ano. Em 2006 ele tentou (sem sucesso) se eleger deputado federal.<\/p>\n<p>Nabhan se uniu a Bolsonaro quando a candidatura do ent\u00e3o deputado era discutida num reduzido c\u00edrculo de apoiadores. Na campanha andou com o ent\u00e3o candidato pelo pa\u00eds, ciceroneando-o em todos os eventos ruralistas, promovendo encontros com l\u00edderes do agroneg\u00f3cio e ajudando a alinhar o discurso de extrema direita para o campo e o estilo radical que tem colocado o governo brasileiro na contram\u00e3o do mundo em rela\u00e7\u00e3o ao meio ambiente e \u00e0s comunidades ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>O secret\u00e1rio, no entanto, est\u00e1 longe de ter apoio consensual da bancada ruralista, como ficou demonstrado na escolha da deputada Tereza Cristina (DEM-MS) para comandar o Minist\u00e9rio da Agricultura. Ele nunca escondeu que queria o posto e chegou a admitir a amigos pr\u00f3ximos que se sentiu desprestigiado com a nomea\u00e7\u00e3o para a Secretaria de Assuntos Fundi\u00e1rios. Presidente da Frente Parlamentar da Agropecu\u00e1ria (FPA) no per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o, conciliadora e flex\u00edvel se comparada com o grosso da bancada ruralista, Tereza Cristina tem estilo oposto ao do secret\u00e1rio.<\/p>\n<p>Um assessor do minist\u00e9rio ouvido pela P\u00fablica contou que a incompatibilidade entre a ministra e Nabhan \u00e9 um segredo de polichinelo: embora n\u00e3o aborde essas quest\u00f5es em p\u00fablico, a ministra \u201ctolera\u201d Nabhan Garcia com certo esfor\u00e7o, mas j\u00e1 reclamou, inclusive a Bolsonaro, do voluntarismo de um subordinado que \u201catravessa\u201d a hierarquia por se achar amigo do presidente.<\/p>\n<p>A ministra n\u00e3o tem for\u00e7a pol\u00edtica para demitir o subordinado. O que mais pesa nos argumentos de Tereza Cristina, uma pr\u00f3spera propriet\u00e1ria rural, s\u00e3o os preju\u00edzos que Nabhan Garcia e seu radicalismo contra opositores, afinal, incorporado ao discurso governista, possam provocar ao agroneg\u00f3cio. O secret\u00e1rio, que j\u00e1 declarou n\u00e3o desgrudar de armas nem para dormir, foi um dos assessores que influ\u00edram na decis\u00e3o do presidente em bancar a lei que estende o porte de armas a todo o per\u00edmetro de propriedades rurais. A reivindica\u00e7\u00e3o tinha o apoio tamb\u00e9m do chefe da Casa Civil do Planalto, Onyx Lorenzoni.<\/p>\n<p>Ainda assim, boa parte dos membros da bancada ruralista tende a perdoar os seus \u201cexcessos\u201d. \u201cO Nabhan \u00e9 impetuoso, quer que as coisas aconte\u00e7am\u201d, afirma o senador ruralista Francisco Rodrigues (DEM-RR), para explicar a interfer\u00eancia do secret\u00e1rio em autarquias cujas decis\u00f5es, por liturgia ou prerrogativa, pertencem aos ministros. \u201cSua fun\u00e7\u00e3o \u00e9 fazer a regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria de forma republicana. N\u00e3o creio que v\u00e1 al\u00e9m do que quer o presidente\u201d, diz Rodrigues.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o importa o nome ou seus v\u00ednculos com a UDR. Se ele conseguir transformar a pol\u00edtica fundi\u00e1ria em pol\u00edtica de Estado e organizar o Incra, que vive uma fase de extin\u00e7\u00e3o e est\u00e1 bichado, n\u00e3o tenho nada contra. Mas at\u00e9 agora nada aconteceu e \u00e9 claro que falta planejamento. Precisa despir a pol\u00edtica fundi\u00e1ria das ideologias\u201d, diz o senador Jaime Campos (DEM-MT).<\/p>\n<div class=\"widget-news widget-box no-margin no-border\"><span class=\"widget-news-title content-box-title\">Veja tamb\u00e9m<\/span><\/p>\n<ul class=\"widget-news-list\">\n<li class=\"widget-news-item without-thumb with-border\">\n<div class=\"widget-news-info\"><a href=\"http:\/\/exame.abril.com.br\/brasil\">BRASIL<\/a><span class=\"widget-news-item-title\"><a href=\"https:\/\/exame.abril.com.br\/brasil\/presidencia-da-funai-faz-demissao-generalizada-em-coordenacoes-do-orgao\/\">Presid\u00eancia da Funai faz demiss\u00e3o generalizada em coordena\u00e7\u00f5es do \u00f3rg\u00e3o<\/a><\/span><span class=\"widget-news-item-date\">1 out 2019 &#8211; 21h10<\/span><\/div>\n<\/li>\n<\/ul>\n<\/div>\n<h3>A UDR de Nabhan<\/h3>\n<p>O secret\u00e1rio ficou conhecido por pregar o radicalismo que resultou em v\u00e1rios conflitos no Pontal do Paranapanema em meados da d\u00e9cada de 1990, durante o governo Fernando Henrique Cardoso. Mais tarde, j\u00e1 como cabe\u00e7a do movimento de refunda\u00e7\u00e3o da UDR, em 2003 chegou a ter seu nome envolvido em uma rumorosa pris\u00e3o de um fazendeiro acusado de porte ilegal e contrabando de armas, filiado \u00e0 entidade. Autuado em flagrante com nove armas de grosso calibre e de uso exclusivo das For\u00e7as Armadas, o pecuarista Manoel Domingues Paes Neto relatou \u00e0 Pol\u00edcia Federal (PF) que Nabhan, com touca ninja encobrindo o rosto, \u00f3culos escuros e bon\u00e9, estava entre fazendeiros e seguran\u00e7as que se deixaram fotografar portando armas de grosso calibre pelo jornal O Estado de S\u00e3o Paulo, \u201cpara assustar o MST e inibir as invas\u00f5es de terra no Pontal do Paranapanema\u201d. Esse depoimento foi lido pelo ex-relator da CPMI (Comiss\u00e3o Parlamentar Mista de Inqu\u00e9rito) da Terra, Jo\u00e3o Alfredo (Psol-CE), que concluiu haver \u201cfortes ind\u00edcios de que Nabhan Garcia e outros propriet\u00e1rios rurais do Pontal do Paranapanema estimulam a organiza\u00e7\u00e3o de mil\u00edcias privadas\u201d. Esse relat\u00f3rio acabou derrotado e se transformou num voto separado, prevalecendo o relat\u00f3rio paralelo do deputado Alberto Lupion (DEM-PR).<\/p>\n<p>Os documentos da mesma CPMI mostram que na \u00e9poca o secret\u00e1rio usou a estrutura jur\u00eddica da UDR para defender Paes Neto, que era filiado \u00e0 entidade. Entre a pris\u00e3o e sua oitiva ao Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, Paes Neto mudou radicalmente o teor das declara\u00e7\u00f5es: afirmou que foi pressionado e espancado por policiais encapuzados e livrou o presidente da UDR de responsabilidade. Mas n\u00e3o mostrou nenhuma evid\u00eancia da agress\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao prestar depoimento \u00e0 CPMI em 2005, Paes Neto reafirmou que Nabhan Garcia n\u00e3o tinha responsabilidade pelas armas. Ouvida pelos parlamentares, a delegada Mirian Takano Omori, da PF, que tomou o depoimento, desmentiu o fazendeiro: disse que ele citou o nome de Nabhan espontaneamente antes que a pris\u00e3o em flagrante fosse formalizada e, no mesmo dia, ap\u00f3s ser indiciado, foi submetido a exames de corpo de delito. No depoimento \u00e0 CPMI a delegada lembrou que o laudo confirmou que o fazendeiro n\u00e3o apresentava sinais de nenhum tipo de agress\u00e3o.<\/p>\n<p>Dirigente do MST no Pontal do Paranapanema durante os embates com a UDR, Gilmar Mauro, coordenador nacional, estima que atualmente 4 milh\u00f5es de fam\u00edlias de trabalhadores rurais est\u00e3o fora do campo em decorr\u00eancia do desemprego e da paralisa\u00e7\u00e3o do processo de distribui\u00e7\u00e3o de terras. Destas, 90 mil vivem em acampamentos de lona preta \u00e0s margens de rodovias em diferentes regi\u00f5es. Realista, Mauro diz que n\u00e3o espera do governo Bolsonaro nenhum gesto de abertura de di\u00e1logo ou iniciativa de reforma agr\u00e1ria e avalia que a liberaliza\u00e7\u00e3o do porte de arma fortaleceu a pistolagem, aumentando consideravelmente a tens\u00e3o no meio rural.<\/p>\n<p>\u201cSabemos bem como s\u00e3o as mil\u00edcias, mas n\u00e3o nos expomos. O problema social agravado pela crise econ\u00f4mica prolongada determinar\u00e1 o limite e forma de luta. N\u00f3s n\u00e3o inventamos as ocupa\u00e7\u00f5es\u201d, diz, num recado sutil sobre a possibilidade de retomada as invas\u00f5es. Mauro diz que, enquanto define que n\u00e3o haver\u00e1 desapropria\u00e7\u00e3o de terras para a reforma agr\u00e1ria, o governo abre as portas para a legaliza\u00e7\u00e3o da grilagem por meio da regulariza\u00e7\u00e3o autodeclarada. \u201cPassa-se da grilagem para a pilhagem de terras devolutas\u201d, diz, preconizando uma nova onda de invas\u00e3o por m\u00e9dios e grandes propriet\u00e1rios em terras devolutas na Amaz\u00f4nia Legal.<\/p>\n<p>Ministro da Reforma Agr\u00e1ria de FHC, em cuja fun\u00e7\u00e3o atuou no Pontal do Paranapanema, Raul Jungmann \u2013 que sempre foi cr\u00edtico ao MST \u2013 diz que a postura de Nabhan enquanto presidente da UDR e as posi\u00e7\u00f5es que ele tem adotado no governo Bolsonaro n\u00e3o ajudam na solu\u00e7\u00e3o das demandas do campo. \u201cPara resolver e encaminhar o conflito fundi\u00e1rio, \u00e9 necess\u00e1rio n\u00e3o ter lado e ser t\u00e9cnico. S\u00e3o precondi\u00e7\u00f5es para o equil\u00edbrio nas decis\u00f5es e o n\u00e3o acirramento das tens\u00f5es\u201d, diz o ex-ministro.<\/p>\n<h3>Dois andares de terra<\/h3>\n<p>A grilagem e as fraudes geraram na Amaz\u00f4nia Legal \u00edndices t\u00e3o altos de sobreposi\u00e7\u00e3o de propriedades que, pelos registros em cart\u00f3rios em alguns munic\u00edpios, deveriam ter dois andares de terra. Por essa raz\u00e3o, na hip\u00f3tese de vingar a proposta da regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria por autodeclara\u00e7\u00e3o, os t\u00e9cnicos do Incra recomendam como imprescind\u00edvel checar in loco todas as informa\u00e7\u00f5es e os limites corretos de cada \u00e1rea. \u201cO modelo autodeclarat\u00f3rio pode ser vi\u00e1vel, mas se vier acompanhado de estrutura robusta de intelig\u00eancia, um corpo t\u00e9cnico de fiscais aptos a enxergar inconformidades e se houver integra\u00e7\u00e3o entre as diversas bases de dados das institui\u00e7\u00f5es governamentais\u201d, afirmou \u00e0 P\u00fablica o engenheiro cart\u00f3grafo Miguel Pedro da Silva Neto, um dos criadores do Sistema de Gest\u00e3o Fundi\u00e1ria do Incra.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 dif\u00edcil o Estado sair \u00e0 procura de pessoas. A regulariza\u00e7\u00e3o autodeclar\u00e1vel \u00e9 r\u00e1pida, com um custo muito menor, e ao mesmo tempo mostra o respeito que esse governo tem para com o produtor. \u00c9 desburocratizar para resolver uma pend\u00eancia fundi\u00e1ria que est\u00e1 a\u00ed h\u00e1 quatro ou cinco d\u00e9cadas\u201d, rebate o secret\u00e1rio. Seu argumento \u00e9 controverso: ele compara o procedimento ao j\u00e1 adotado na declara\u00e7\u00e3o do Imposto de Renda, no Imposto Territorial Rural (ITR) e no Cadastro Ambiental Rural (CAR).<\/p>\n<p>O modelo do CAR, com 6 milh\u00f5es de \u00e1reas cadastradas nos \u00faltimos sete anos, segundo o engenheiro, apresenta baix\u00edssimo \u00edndice de valida\u00e7\u00e3o por n\u00e3o contar, como a Receita Federal, com estrutura de intelig\u00eancia que permita comprova\u00e7\u00e3o, o que, em vez de solucionar, pode potencializar as tens\u00f5es. \u201cSem validar o que foi declarado, n\u00e3o h\u00e1 como regularizar e isso pode aumentar os conflitos\u201d, afirma Silva Neto.<\/p>\n<p>O secret\u00e1rio garante, no entanto, que onde houver terra devoluta com ocupante afirmando que est\u00e1 na \u00e1rea \u201cde forma mansa e pac\u00edfica\u201d o governo vai regularizar. Segundo o Instituto Imazon, dos 886 quil\u00f4metros quadrados de florestas desmatadas na Amaz\u00f4nia Legal at\u00e9 agosto deste ano (63% a mais comparado com o mesmo per\u00edodo de 2018), 48% ocorreram em \u00e1reas privadas ou sob diferentes est\u00e1gios de posse. \u00c9 nesse grupo que se encontram produtores rurais que, arregimentados por Nabhan Garcia, engrossaram o cintur\u00e3o de apoio ruralista ao ent\u00e3o candidato Jair Bolsonaro, como mostra o caso de Nova Bandeirantes.<\/p>\n<h3>Nova Bandeirantes e a queda do general Jesus<\/h3>\n<p>No meio da crise que derrubou o general Jesus Corr\u00eaa, o Incra concluiu um levantamento de campo sobre a Gleba Japurana, no munic\u00edpio de Nova Bandeirantes, no norte do Mato Grosso, ocupada por 426 fam\u00edlias de pequenos agricultores que h\u00e1 mais de duas d\u00e9cadas aguardam a regulariza\u00e7\u00e3o, que depende da desapropria\u00e7\u00e3o e indeniza\u00e7\u00e3o dos propriet\u00e1rios. Em 2017, durante o governo Michel Temer, foram liberados cerca de R$ 42 milh\u00f5es para indenizar parte dos propriet\u00e1rios, todos eles da fam\u00edlia Dallagnol, incluindo o pai e tios de Deltan, o procurador da Lava Jato. Outras 14 fam\u00edlias, que tamb\u00e9m cederam as terras em regime de comodato, tamb\u00e9m teriam que ser indenizadas, o que exigir\u00e1 a libera\u00e7\u00e3o de pelo menos o dobro do que foi at\u00e9 agora reservado aos Dallagnol.<\/p>\n<p>Com um passivo de irregularidades, Nova Bandeirantes \u00e9 o retrato da coloniza\u00e7\u00e3o que Nabhan Garcia defende. O munic\u00edpio foi criado no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1980 pela fam\u00edlia Meneghel, chefiada pelos irm\u00e3os Serafim e Daniel, que deixaram o Paran\u00e1 para colonizar o norte do Mato Grosso. No ano passado, Serafim Meneghel chegou a emprestar um jatinho para translado do ent\u00e3o candidato a vice Hamilton Mour\u00e3o. A fam\u00edlia Meneghel tem terras com pend\u00eancias de regulariza\u00e7\u00e3o em Nova Bandeirantes e outros munic\u00edpios do norte mato-grossense.<\/p>\n<p>Numa mensagem pelo aplicativo de WhatsApp, dirigida a um grupo pequeno de amigos e servidores de confian\u00e7a, o general Jesus Corr\u00eaa disse que deixava o Incra no momento em que iniciava o trabalho mais complexo, atacando as 30 superintend\u00eancias, \u201conde h\u00e1, em algumas delas, verdadeiras organiza\u00e7\u00f5es criminosas instaladas\u201d. Ele citou as superintend\u00eancias de Mato Grosso e Rond\u00f4nia como as mais problem\u00e1ticas e disse por que acha que caiu: \u201cComo est\u00e1vamos contrariando interesses e agindo com \u00e9tica e honestidade, passamos a ser pedra no sapato\u201d, disse.<\/p>\n<p>Mais expl\u00edcito, o coronel Marco Ant\u00f4nio dos Santos, que ocupava a Diretoria de Gest\u00e3o do Incra, disse \u00e0 revista Cruso\u00e9 que o grupo foi demitido, n\u00e3o por demora na regulariza\u00e7\u00e3o, como argumentou o secret\u00e1rio, mas por contrariar seus interesses. \u201cCa\u00edmos porque incomodamos Nabhan Garcia e seu grupo, que \u00e9 um pequeno segmento da bancada ruralista. Eles julgavam que n\u00f3s n\u00e3o est\u00e1vamos atendendo as titula\u00e7\u00f5es de terra que ele pedia. Titula\u00e7\u00e3o em cima do grupo dele. Sempre queria que titulasse fazendas etc. Nunca disse para titular as pessoas assentadas em programa da reforma agr\u00e1ria\u201d, disse, segundo a revista.<\/p>\n<p>Nos 40 minutos de entrevista \u00e0 P\u00fablica, feita antes da crise que derrubou o general Jesus Corr\u00eaa, Nabhan Garcia irritou-se v\u00e1rias vezes, especialmente quando questionado sobre a forte influ\u00eancia da bancada ruralista na Funai. \u201cComo ignorar uma bancada que tem 305 parlamentares?\u201d, disse. No final, encerrou a entrevista rispidamente, contrariado com perguntas sobre a falta de agenda governamental para entidades indigenistas e movimentos que lutam pela terra. A P\u00fablica encaminhou novas perguntas sobre a rea\u00e7\u00e3o dos militares que deixaram o Incra e sua participa\u00e7\u00e3o nos conflitos no Pontal do Paranapanema, mas o secret\u00e1rio n\u00e3o respondeu.<\/p>\n<h3>Volta da Funai?<\/h3>\n<p>Em agosto, Nabhan Garcia sofreu uma amarga derrota no STF com a cassa\u00e7\u00e3o da prerrogativa de interferir em quest\u00f5es cruciais para a bancada ruralista, como a identifica\u00e7\u00e3o e demarca\u00e7\u00e3o de terras ind\u00edgenas. A atribui\u00e7\u00e3o estava vinculada \u00e0 pasta da Agricultura, mas o STF a mandou de volta ao Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a junto com a estrutura da Funai. Ou seja, legalmente, Nabhan Garcia n\u00e3o pode interferir em demarca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As idas e vindas da Funai por minist\u00e9rios s\u00e3o vistas pelo coordenador da Organiza\u00e7\u00e3o dos Povos Ind\u00edgenas de Rond\u00f4nia, Noroeste do Mato Grosso e Sul do Amazonas (Opiroma), Jos\u00e9 Luiz Kassup\u00e1, como um sinal de que o governo pode tentar devolver a autarquia para o comando de Nabhan Garcia por meio de uma nova medida provis\u00f3ria. \u201cEle [Nabhan Garcia] enxerga a gente como entrave ao desenvolvimento. Parou as demarca\u00e7\u00f5es num momento em que v\u00e1rios povos estavam pedindo \u00e1reas que ficaram de fora de processos homologados anteriormente.Enquanto isso, no Congresso tem mais de cem projetos que retiram direitos dos \u00edndios em debate para reduzir terras e abrir para a explora\u00e7\u00e3o\u201d, diz Kassup\u00e1.<\/p>\n<p>Segundo ele, h\u00e1 relatos de que at\u00e9 antigas aldeias ocupadas por grupos isolados s\u00e3o destru\u00eddas com a finalidade de descaracterizar \u00e1reas de uso ind\u00edgena tradicional e, assim, reduzir o territ\u00f3rio ind\u00edgena para legalizar invas\u00f5es. E afirma que o Incra vem fazendo levantamentos em locais ocupados por pequenos posseiros dentro de territ\u00f3rios ind\u00edgenas e \u00e1reas florestais protegidas com a finalidade de regularizar posses ilegais. \u201cJ\u00e1 vimos isso: falam que \u00e9 para os pequenos e depois passam para os latifundi\u00e1rios.\u201d<\/p>\n<p>Com a decis\u00e3o do STF que cassou sua prerrogativa, Nabhan Garcia diz, no entanto, que s\u00f3 atua no tema da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola em \u00e1reas ind\u00edgenas. Quem acompanha a vida das etnias diz que n\u00e3o \u00e9 bem assim. \u201cNos bastidores Nabhan Garcia continua articulando. Ele procura os grupos favor\u00e1veis ao governo, aos quais oferece benef\u00edcios e cargos na Funai para desarticular o movimento ind\u00edgena contr\u00e1rio \u00e0 minera\u00e7\u00e3o e \u00e0 explora\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria por terceiros em terras ind\u00edgenas\u201d, disse \u00e0 P\u00fablica o novo secret\u00e1rio-executivo do Conselho Mission\u00e1rio Indigenista (Cimi), Eduardo Cerqueira de Oliveira.<\/p>\n<p>O secret\u00e1rio-executivo do Cimi afirma que o universo cooptado pelo governo n\u00e3o passa de 1% das lideran\u00e7as ind\u00edgenas. As demais, segundo ele, n\u00e3o s\u00e3o recebidas por autoridades respons\u00e1veis pela Funai. Nabhan Garcia d\u00e1 de ombros: \u201cA maior riqueza mineral do Brasil est\u00e1 na Amaz\u00f4nia. Vai manter o \u00edndio na ociosidade? No interesse de quem? De ONGs escusas que est\u00e3o a\u00ed? Ningu\u00e9m pode impedir que o \u00edndio fa\u00e7a o seu garimpo, produza, plante e colha\u201d.<\/p>\n<p>Para as entidades, Nabhan Garcia como gestor agr\u00e1rio e indigenista \u00e9, no m\u00ednimo, sinal de complac\u00eancia do governo com o segmento atrasado do agroneg\u00f3cio e de retrocesso nos direitos dos povos tradicionais. \u201c\u00c9 como a raposa tomando conta do galinheiro\u201d, diz Oliveira.<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/apublica.org\/2019\/11\/o-todo-poderoso-nabhan\/\">*Mat\u00e9ria publicada originalmente pela Ag\u00eancia P\u00fablica<\/a><\/strong><\/p>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/exame.abril.com.br\/brasil\/quem-e-nabhan-garcia-o-todo-poderoso-secretario-fundiario-de-bolsonaro\/\">Fonte do artigo <\/a><br \/>\nTags:<br \/>\n#politica #political #negocios #business #marketingdigital #empreendedorismo #marketing #emprendedores #empreender #sucesso #empresas #emprendimiento #emprendedor #empreendedor #emprender #dinheiro #dinero #empresario #vendas #liderazgo #motivacion #foco #motivacao #negocio #brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homem de confian\u00e7a do presidente Jair Bolsonaro na execu\u00e7\u00e3o de miss\u00f5es voltadas para o meio rural, em dez meses no cargo o secret\u00e1rio nacional de Assuntos Fundi\u00e1rios, Luiz Antonio Nabhan Garcia, passou por cima de ministros, derrubou dois generais e ajudou a dar forma \u00e0 ret\u00f3rica governista contra ambientalistas e indigenistas. 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