{"id":33589,"date":"2023-02-26T15:18:39","date_gmt":"2023-02-26T18:18:39","guid":{"rendered":"https:\/\/wiy.com.br\/noticias\/acao-contra-garimpo-ilegal-teria-tido-omissoes-do-ibama-e-do-exercito\/"},"modified":"2019-10-12T08:29:11","modified_gmt":"2019-10-12T11:29:11","slug":"acao-contra-garimpo-ilegal-teria-tido-omissoes-do-ibama-e-do-exercito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wiy.com.br\/noticias\/acao-contra-garimpo-ilegal-teria-tido-omissoes-do-ibama-e-do-exercito\/","title":{"rendered":"A\u00e7\u00e3o contra garimpo ilegal teria tido omiss\u00f5es do Ibama e do Ex\u00e9rcito"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<p>A apreens\u00e3o de 60 balsas de <strong><a href=\"https:\/\/exame.abril.com.br\/noticias-sobre\/garimpeiros\/\">garimpo<\/a><\/strong> ilegal nos rios que serpenteiam o vale do Javari e a Reserva de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel (RDS) Cujubim, no oeste do estado do Amazonas, na fronteira do Brasil com Peru e Col\u00f4mbia, entre os dias 10 e 13 de setembro, \u00e9 mais um cap\u00edtulo da resist\u00eancia do governo Jair Bolsonaro \u00e0 lei que permite a destrui\u00e7\u00e3o de equipamentos usados em garimpos ilegais.<\/p>\n<p>A Ag\u00eancia P\u00fablica teve acesso a uma A\u00e7\u00e3o Civil P\u00fablica (ACP) impetrada no fim de julho pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF) \u00e0 Justi\u00e7a Federal de Tabatinga, no Amazonas, onde o <strong><a href=\"https:\/\/exame.abril.com.br\/noticias-sobre\/ibama\/\">Ibama<\/a><\/strong>, autarquia vinculada ao Minist\u00e9rio do Meio Ambiente, figura como r\u00e9u, acusado de se omitir na aplica\u00e7\u00e3o da Lei 9.605 e do Decreto 6.514, de 2008, que autorizam seus fiscais a destruir balsas, dragas ou qualquer ve\u00edculo ou equipamento apreendidos em locais de dif\u00edcil acesso, sem condi\u00e7\u00f5es de transporte ou que implique risco aos agentes.<\/p>\n<p>A opera\u00e7\u00e3o Korubo \u2013 refer\u00eancia a uma das etnias do vale do Javari de contato recente \u2013 durou cinco dias e foi encerrada em 13 de setembro. Envolveu cinco meses de planejamento entre a localiza\u00e7\u00e3o das embarca\u00e7\u00f5es e o in\u00edcio da a\u00e7\u00e3o e causou preju\u00edzos estimados em at\u00e9 R$ 30 milh\u00f5es aos empres\u00e1rios que financiam os garimpos ilegais.<\/p>\n<p>No mesmo per\u00edodo, entre 11 e 15 de setembro, os fiscais do Ibama incendiaram retroescavadeiras encontradas em garimpos na Terra Ind\u00edgena (TI) Trincheira Bacaj\u00e1, no rio Guam\u00e1, e ao longo da BR-163, no Par\u00e1. No caso da Korubo, foram empregados 60 homens das tropas de elite da Pol\u00edcia Federal, Ibama e Funai.<\/p>\n<p>O Comando Militar da Amaz\u00f4nia (CMA) chegou a participar do planejamento, mas no fim n\u00e3o se incorporou \u00e0 opera\u00e7\u00e3o, mesmo com a presen\u00e7a de tropas do Ex\u00e9rcito na regi\u00e3o cumprindo miss\u00e3o de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), determinada por decreto de Bolsonaro para combater as queimadas.<\/p>\n<h3>Adiamentos por recusa do Ex\u00e9rcito<\/h3>\n<p>Um fiscal do Ibama, que pediu que seu nome n\u00e3o fosse revelado, disse \u00e0 P\u00fablica que, ao contr\u00e1rio de outros momentos, o Ex\u00e9rcito tem se recusado a apoiar os \u00f3rg\u00e3os de controle federal, o que resultou no adiamento da Opera\u00e7\u00e3o Korubo.<\/p>\n<p>Um documento interno, encaminhado \u00e0 c\u00fapula do Ibama por seus fiscais, relata que o Comando Militar do Norte (CMN) tamb\u00e9m se recusou, em tr\u00eas ocasi\u00f5es, a empregar tropas do Ex\u00e9rcito nas a\u00e7\u00f5es do \u00f3rg\u00e3o no Par\u00e1, sob o argumento de que poderiam resultar em destrui\u00e7\u00e3o de bens num momento em que estava em curso negocia\u00e7\u00f5es com garimpeiros que naqueles dias haviam bloqueado a BR-163. Procurados pela reportagem, os comandos militares n\u00e3o comentaram.<\/p>\n<p>Num documento de 17 de junho, em que detalha os passos do planejamento inicial da Opera\u00e7\u00e3o Korubo, o procurador da Rep\u00fablica Valdir Monteiro de Oliveira J\u00fanior escreveu que a Funai e o Ibama estavam contando com um helic\u00f3ptero Black Hawk do Ex\u00e9rcito (aeronave com capacidade para transportar at\u00e9 quatro toneladas de equipamentos e 12 pessoas, utilizado para descer e retirar tropas em locais de dif\u00edcil acesso) para \u201cinfiltra\u00e7\u00e3o e exfiltra\u00e7\u00e3o de agentes e embarca\u00e7\u00f5es\u201d nos garimpos, mas desistiram depois que o CMA alegou, por quest\u00f5es t\u00e9cnicas, que apenas poderia deixar os agentes na selva.<\/p>\n<p>\u201cAp\u00f3s interlocu\u00e7\u00e3o com o CMA, foi poss\u00edvel garantir apenas a infiltra\u00e7\u00e3o, e, ainda assim, sem o transporte das embarca\u00e7\u00f5es\u201d, registra o procurador, o que motivou, segundo ele, um novo e \u00faltimo planejamento da opera\u00e7\u00e3o, dessa vez sem nenhuma presen\u00e7a militar.<\/p>\n<p>Segundo Oliveira J\u00fanior, em 2014 e 2017, em circunst\u00e2ncias semelhantes, o Ex\u00e9rcito atuou com o Ibama para destruir balsas e dragas em garimpos ilegais no rio Jandiatuba e afluentes, no mesmo vale do Javari.<\/p>\n<p>Embora os relatos da A\u00e7\u00e3o Civil P\u00fablica envolvam o CMA, o alvo do MPF \u00e9 o Ibama, que tem a prerrogativa de decidir em quais casos se aplica a destrui\u00e7\u00e3o de ve\u00edculos e equipamentos. Oliveira J\u00fanior emitiu uma recomenda\u00e7\u00e3o formal dirigida ao presidente do Ibama em Bras\u00edlia, Eduardo Fortunato Bim, ao diretor de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental, Olivaldi Azevedo, e ao superintendente interino da autarquia no Amazonas, Leslie Tavares, para que o \u00f3rg\u00e3o autorizasse seus fiscais a destruir balsas e dragas. No dia 30 de julho, diante do sil\u00eancio do \u00f3rg\u00e3o, o procurador entrou com a A\u00e7\u00e3o Civil P\u00fablica para exigir, por ordem judicial, que a medida administrativa fosse cumprida.<\/p>\n<p>No pr\u00f3prio governo o tema causa confus\u00e3o. No dia 9 de setembro, o ent\u00e3o superintendente do Ibama no Par\u00e1, Evandro Cunha dos Santos, nomeado dias antes pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, foi demitido por ter revelado, numa audi\u00eancia p\u00fablica em Altamira, que recebeu ordem para n\u00e3o destruir nada que causasse preju\u00edzos ao patrim\u00f4nio dos infratores.<\/p>\n<p>Num procedimento que pode nortear futuras opera\u00e7\u00f5es na regi\u00e3o, o MPF pede que a Justi\u00e7a Federal determine ao Ibama que se abstenha de nomear os infratores como fi\u00e9is deposit\u00e1rios e autorize a destrui\u00e7\u00e3o de tudo o que for encontrado em garimpos ilegais. Caso o juiz federal de Tabatinga, Bruno Hermes Leal, atenda o MPF no julgamento de m\u00e9rito, a decis\u00e3o pode valer para toda a regi\u00e3o Norte, levando a pauta para os tribunais superiores.<\/p>\n<h3>Lei manda destruir<\/h3>\n<p>A opera\u00e7\u00e3o foi deflagrada pelo menos tr\u00eas meses depois que o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Prote\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia (Censipam), \u00f3rg\u00e3o ligado ao Minist\u00e9rio da Defesa, flagrou, por imagens de sat\u00e9lite de alta resolu\u00e7\u00e3o, uma grande quantidade de balsas em atividade garimpeira nos rios Juta\u00ed, Jutaizinho, Curuena, Igarap\u00e9 do Lobo, Boia e Mutum, que fazem parte da RDS Cujubim.<\/p>\n<p>A reserva ecol\u00f3gica se liga ao vale do Javari atrav\u00e9s da aldeia Jarinal, cujo acesso se d\u00e1 pelo alto dos rios Jata\u00ed e Juru\u00e1 e onde vivem os ind\u00edgenas Kanamary e Tyohom-Dyapah \u2013 etnia de contato recente \u2013 e pelo menos outros 14 grupos de \u00edndios isolados, alguns dos quais n\u00e3o querem contato. Juntos, os dois territ\u00f3rios somam quase 11 milh\u00f5es de hectares.<\/p>\n<p>O alerta da Funai sobre a \u201csitua\u00e7\u00e3o extremamente grave urgente de garimpo ilegal\u201d foi dado no dia 29 abril, o que motivou a integra\u00e7\u00e3o entre os \u00f3rg\u00e3os federais e resultou numa ampla reuni\u00e3o promovida em Manaus no dia 16 de junho, per\u00edodo em que a opera\u00e7\u00e3o deveria ter sido deflagrada. A op\u00e7\u00e3o dos \u00f3rg\u00e3os de controle, desde o in\u00edcio, era destruir as balsas e dragas, uma vez que os \u00fanicos acessos aos garimpos eram por ar e rios.<\/p>\n<p>Nessa regi\u00e3o de selva densa, uma viagem de barco entre a foz do rio Juta\u00ed e a aldeia Jarinal dura ao menos dez dias. Mesmo com bases instaladas no Javari, a Funai s\u00f3 foi \u00e0 aldeia Jarinal apenas duas vezes nos \u00faltimos sete anos.<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o de garimpeiros na regi\u00e3o pr\u00f3xima aos \u00edndios isolados n\u00e3o \u00e9 recente, mas se acentuou desde a elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro. Uma den\u00fancia encaminhada ao MPF por um promotor de Juta\u00ed, anexada \u00e0 a\u00e7\u00e3o civil, d\u00e1 conta de que a movimenta\u00e7\u00e3o aumentou a partir de novembro do ano passado, n\u00e3o por coincid\u00eancia, logo depois da elei\u00e7\u00e3o, alcan\u00e7ando um total de 122 balsas e 90 dragas em plena atividade nos meses que antecederam a Opera\u00e7\u00e3o Korubo.<\/p>\n<p>Entidades ambientalistas e indigenistas j\u00e1 haviam alertado que os recados emitidos pelo governo estimulavam os invasores e inibiam os fiscais. O procurador trata a pol\u00eamica com sutileza na a\u00e7\u00e3o civil. \u201cDe fato, a forma como certos ve\u00edculos repercutem algumas declara\u00e7\u00f5es de membros do governo induziu certos agentes p\u00fablicos a terem receio de repres\u00e1lia na seara correcional, mesmo nas hip\u00f3teses em que plenamente aplic\u00e1vel a destrui\u00e7\u00e3o in loco\u201d, escreve Valdir Monteiro de Oliveira J\u00fanior.<\/p>\n<p>No relat\u00f3rio, ele afirma que a posi\u00e7\u00e3o do governo favor\u00e1vel \u00e0 regulamenta\u00e7\u00e3o dos garimpos n\u00e3o \u00e9 um \u201cliberou geral\u201d aos criminosos: \u201cO mais fact\u00edvel \u00e9 que as manifesta\u00e7\u00f5es do governo tenham sido no sentido de n\u00e3o banalizar o ato de destrui\u00e7\u00e3o: sendo poss\u00edvel apreender a destruir, deve-se apreender\u201d, diz o procurador.<\/p>\n<p>Convencido, no entanto, de que a \u00fanica op\u00e7\u00e3o era inutilizar os equipamentos, e amparado em pedido semelhante cuja liminar foi acatada pela Justi\u00e7a Federal de Rond\u00f4nia, em abril deste ano Oliveira J\u00fanior queria que o juiz federal de Tabatinga, Bruno Hermes Leal, concedesse uma liminar num pedido de tutela de urg\u00eancia, o que obrigaria a c\u00fapula do Ibama a autorizar a opera\u00e7\u00e3o de destrui\u00e7\u00e3o, cumprindo a lei.<\/p>\n<p>Como a autarquia acabou acatando a recomenda\u00e7\u00e3o do MPF antes da abertura da a\u00e7\u00e3o civil, iniciada em 2 de agosto, o juiz negou por considerar prejudicada eventual ordem judicial. Mas o pleito do MPF continua tramitando.<\/p>\n<p>\u201cO que se quer \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o de t\u00edtulo executivo judicial consistente nas obriga\u00e7\u00f5es de fazer\u201d, frisa o procurador. Ou seja, segundo ele, a poss\u00edvel condena\u00e7\u00e3o do Ibama criaria seguran\u00e7a jur\u00eddica e ratificaria \u201ca atua\u00e7\u00e3o dos agentes ambientais no exerc\u00edcio do poder de pol\u00edcia\u201d, obrigando servidores a agir de acordo com a lei em situa\u00e7\u00f5es futuras semelhantes.<\/p>\n<p>Tr\u00eas dias depois de a Opera\u00e7\u00e3o Korubo ter sido deflagrada, um grupo de parlamentares e representantes de garimpeiros da regi\u00e3o amaz\u00f4nica foi recebido no Pal\u00e1cio do Planalto pelo ministro Onyx Lorenzoni, chefe da Casa Civil, para reclamar da destrui\u00e7\u00e3o de retroescavadeiras usadas em garimpos clandestinos \u00e0 margem da BR-163, o que havia motivado o bloqueio da rodovia como protesto contra a fiscaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A Korubo era, segundo o fiscal do Ibama ouvido pela reportagem, a primeira opera\u00e7\u00e3o de vulto autorizada pela c\u00fapula do Ibama.<\/p>\n<p>Entre os congressistas brasileiros, alguns apoios expl\u00edcitos aos garimpeiros est\u00e3o registrados em v\u00eddeos e \u00e1udios. \u00c9 o caso do ex-senador Ernandes Amorim e do deputado federal Jos\u00e9 Medeiros (Pode-MT), que numa declara\u00e7\u00e3o em v\u00eddeo aparece ao lado de um advogado dos garimpeiros, Fernando Brand\u00e3o, tratando os fiscais federais como \u201cinimigos do governo\u201d.<\/p>\n<p>Medeiros orientou: \u201cEles v\u00e3o tentar de tudo nos pr\u00f3ximos dias, pode ter certeza, queimar m\u00e1quinas, fazer de tudo. Se voc\u00ea puder, at\u00e9 o dia 2 [de outubro] tira o p\u00e9 do acelerador, guarda essa m\u00e1quina no barrac\u00e3o, pra evitar\u201d, diz o parlamentar. Em seguida ele explica que o governo n\u00e3o tem como impedir a destrui\u00e7\u00e3o porque os fiscais est\u00e3o amparados numa lei que ele chama de \u201cgambiarra legislativa\u201d. No final, Medeiros diz que o grupo que apoia os garimpeiros est\u00e1 \u201cfirme para derrubar\u201d a legisla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Medeiros nega que tenha defendido ou estimulado os infratores. Ele explicou \u00e0 P\u00fablica, por meio de sua assessoria, que seu objetivo \u00e9 encontrar uma alternativa legal que proteja pequenos trabalhadores que buscam regularizar a atividade. O deputado diz que \u00f3rg\u00e3os como o Instituto Chico Mendes de Conserva\u00e7\u00e3o da Biodiversidade (ICMbio) e Ibama agem por ideologia.<\/p>\n<div class=\"widget-news widget-box no-margin no-border\"><span class=\"widget-news-title content-box-title\">Veja tamb\u00e9m<\/span><\/p>\n<ul class=\"widget-news-list\">\n<li class=\"widget-news-item without-thumb with-border\">\n<div class=\"widget-news-info\"><a href=\"http:\/\/exame.abril.com.br\/brasil\">BRASIL<\/a><span class=\"widget-news-item-title\"><a href=\"https:\/\/exame.abril.com.br\/brasil\/o-garimpo-e-um-vicio-defesa-da-pratica-por-bolsonaro-vem-de-longa-data\/\">\u201cO garimpo \u00e9 um v\u00edcio&#8221;: defesa da pr\u00e1tica por Bolsonaro vem de longa data<\/a><\/span><span class=\"widget-news-item-date\">28 ago 2019 &#8211; 11h08<\/span><\/div>\n<\/li>\n<li class=\"widget-news-item without-thumb with-border\">\n<div class=\"widget-news-info\"><a href=\"http:\/\/exame.abril.com.br\/brasil\">BRASIL<\/a><span class=\"widget-news-item-title\"><a href=\"https:\/\/exame.abril.com.br\/brasil\/numero-de-multas-aplicadas-pelo-ibama-na-amazonia-e-o-menor-em-5-anos-2\/\">N\u00famero de multas aplicadas pelo Ibama na Amaz\u00f4nia \u00e9 o menor em 5 anos<\/a><\/span><span class=\"widget-news-item-date\">5 set 2019 &#8211; 13h09<\/span><\/div>\n<\/li>\n<\/ul>\n<\/div>\n<h3>Aldeia invadida<\/h3>\n<p>A minera\u00e7\u00e3o ilegal na RDS Cujumim, documentada pelo Sensipam em imagens obtidas por sat\u00e9lite, degradou intensamente um dos principais rios da regi\u00e3o, o Boia. Segundo den\u00fancia an\u00f4nima recebida por um promotor de Juta\u00ed e encaminhada ao MPF, esgotado o min\u00e9rio, os garimpeiros \u201cmigraram\u201d do Boia para o rio Mutum e deste para o Jata\u00ed e seus afluentes, atracando suas balsas nas proximidades da aldeia Jarinal, no vale do Javari.<\/p>\n<p>Segundo den\u00fancia encaminhada ao MPF pelas entidades que representam as etnias do Javari, a Uni\u00e3o dos Povos do Vale do Javari (Univaja) e a Associa\u00e7\u00e3o dos Kanamary do Vale do Javari (Akavaja), no dia 10 de julho um grupo de 30 garimpeiros, ocupantes de dez balsas atracadas nas margens do rio Jata\u00ed, no marco demarcat\u00f3rio da TI do Javari, invadiu a aldeia Jarinal.<\/p>\n<p>Embriagados, desrespeitaram a lideran\u00e7a do cacique Tupyana Kanamary, promoveram festas com alto consumo de \u00e1lcool, entraram nas casas e assediaram mulheres ind\u00edgenas. O relato d\u00e1 conta de que os garimpeiros chegaram a tocar \u201cnas partes e seios\u201d das mulheres.<\/p>\n<p>\u201cO cacique informou ainda que os invasores querem construir suas casas dentro da aldeia Jarinal como uma forma de induzir as lideran\u00e7as prometendo construir escola e farm\u00e1cia, se a comunidade deixar tirarem ouro em sua terra\/aldeia\u201d, diz a Akavaja em documento encaminhado \u00e0 Funai. Segundo as entidades, os invasores argumentaram que o governo vai abrir todas as terras ind\u00edgenas \u00e0 minera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A Jarinal j\u00e1 havia sido invadida no dia 25 de fevereiro deste ano. Cinco homens armados, falando em nome de um dono de garimpo, queriam autoriza\u00e7\u00e3o do cacique para atracar balsas e instalar dragas nas proximidades da aldeia, duas das quais foram vistas por profissionais de sa\u00fade em funcionamento no curso do rio Juru\u00e1.<\/p>\n<p>Alguns dias depois, quatro crian\u00e7as Kanamary morreram por desidrata\u00e7\u00e3o causada por v\u00f4mitos e diarreia. Segundo relato da Secretaria Especial de Sa\u00fade Ind\u00edgena, da Funai, encaminhado ao MPF no dia 25 de julho, as suspeitas s\u00e3o de que tenham bebido \u00e1gua contaminada por produtos usados na garimpagem de ouro.<\/p>\n<p>Na aldeia Jarinal vivem atualmente 192 \u00edndios, 150 deles Kanamary e os outros 42, Tyohom-Dyapah, etnias de pouco contato. Nas regi\u00f5es dos rios Boia, Curuena e alto Juta\u00ed, a Funai identificou a presen\u00e7a de nove grupos isolados e investiga sinais de outras tr\u00eas etnias tamb\u00e9m desconhecidas.<\/p>\n<p>\u201cEstes ind\u00edgenas se caracterizam por n\u00e3o possuir contato com a sociedade majorit\u00e1ria envolvente, desconhecendo completamente nossos c\u00f3digos e condutas, estando, portanto, em extrema vulnerabilidade a contatos eventuais com pessoas de fora de seus grupos, que poderiam transmitir doen\u00e7as triviais, mas que para eles poderiam ser fatais\u201d, diz o trecho de um comunicado de alerta distribu\u00eddo pela Funai \u00e0 v\u00e9spera da Opera\u00e7\u00e3o Korubo.<\/p>\n<p>No mesmo texto, os sertanistas ressaltam os riscos de \u201cataques com armas de fogo por parte dos garimpeiros\u201d, com alta probabilidade de os encontros resultarem em massacres.<\/p>\n<p>Sob ataques intermitentes iniciados antes mesmo de ser demarcada, em 2001, a TI do Vale do Javari se transformou, desde o governo Bolsonaro, num dos focos de invas\u00e3o de garimpeiros, ladr\u00f5es de madeira, ca\u00e7adores e pescadores ilegais em busca de tracaj\u00e1 (tartaruga de \u00e1gua doce) e pirarucu nas calhas dos rios Itu\u00ed, Itacoa\u00ed, Curu\u00e7\u00e1 e afluentes do Javari.<\/p>\n<p>A principal base da Frente Etnoambiental do Javari, na conflu\u00eancia dos rios Itu\u00ed e Itacoa\u00ed \u2013 portal de entrada para a \u00e1rea onde vivem 5 mil \u00edndios de sete etnias (Marubo, Mayoruna, Matis, T\u00fck\u00fcna \u2013 ou Kanamary \u2013, Kulina, Korubo e Tyohom-Dyapah), al\u00e9m dos isolados \u2013, foi atacada a tiros pelo menos seis vezes desde novembro do ano passado, quatro delas nos \u00faltimos dois meses. A mais recente ocorreu na madrugada de 21 de setembro, com v\u00e1rios disparos contra os servidores da Funai e ind\u00edgenas que vigiam a base.<\/p>\n<h3>Assassinato e medo<\/h3>\n<p>\u201cO controle e fiscaliza\u00e7\u00e3o da nossa terra est\u00e3o gravemente em risco, uma vez que o atual governo de Jair Bolsonaro tem mantido e fortalecido uma pol\u00edtica de desmonte, desestrutura\u00e7\u00e3o e sucateamento do principal \u00f3rg\u00e3o indigenista do pa\u00eds, a Funai\u201d, alerta a Univaja, em nota de 24 de setembro, em que denuncia a omiss\u00e3o do governo diante dos ataques.<\/p>\n<p>A entidade chama aten\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m para a presen\u00e7a de mission\u00e1rios estrangeiros, que se aproveitam da fragilidade dos controles para buscar contato, sem nenhuma autoriza\u00e7\u00e3o, com \u00edndios isolados. A nota diz que um desses mission\u00e1rios, Andrew Tolkim, j\u00e1 entrou clandestinamente v\u00e1rias vezes na TI do Vale do Javari, para fazer proselitismo religioso, o que afronta a cultura e a cren\u00e7a dos \u00edndios.<\/p>\n<p>Um caso ainda insol\u00favel, o assassinato a tiros do colaborador da Funai Maxciel Pereira dos Santos, no dia 6 de setembro, na principal avenida de Tabatinga, aumentou a tens\u00e3o na TI do Javari e assustou servidores da autarquia encarregados da prote\u00e7\u00e3o aos \u00edndios nas bases da Frente Etnoambiental.<\/p>\n<p>Recentemente, segundo servidores e ind\u00edgenas ouvidos pela P\u00fablica, aos menos cinco funcion\u00e1rios pediram remo\u00e7\u00e3o para seus locais de origem, com medo de repres\u00e1lias. Logo depois do crime, circularam boatos sobre uma suposta lista de pessoas marcadas para morrer. Para confundir, segundo servidores da Funai ouvidos pela P\u00fablica, traficantes s\u00e3o listados ao lado de funcion\u00e1rios p\u00fablicos da autarquia.<\/p>\n<p>Ex-militar da Aeron\u00e1utica, nos dias em que foi assassinado Santos seria nomeado chefe da base Itu\u00ed-Itacoa\u00ed, onde trabalhara nos \u00faltimos 12 anos e era conhecido pelo rigor com que reprimia os infratores que invadiam a \u00e1rea ind\u00edgena. Quem conheceu sua atua\u00e7\u00e3o sabia que era um homem amea\u00e7ado de morte.<\/p>\n<p>\u201cEle ficou muito conhecido por combater os grupos invasores que vinham de Atalaia do Norte, Tabatinga e Benjamin Constant. A morte foi comemorada por pescadores e ca\u00e7adores nos tr\u00eas munic\u00edpios\u201d, disse \u00e0 P\u00fablica Varney Thod\u00e1 Kanamary, vice-coordenador da Univaja, para quem o desafio da pol\u00edcia, agora, \u00e9 provar que o assassinato n\u00e3o tem rela\u00e7\u00e3o com o trabalho de Santos.<\/p>\n<p>O caso est\u00e1 sendo investigado pelas pol\u00edcias Civil e Federal de Taguatinga. O que se sabe at\u00e9 agora \u00e9 que o piloto da motocicleta e o garupa que fez os disparos contra Santos, que tamb\u00e9m pilotava uma moto na avenida mais movimentada da cidade, foram identificados, mas est\u00e3o foragidos.<\/p>\n<p>A pol\u00edcia busca o mandante e a motiva\u00e7\u00e3o do crime. A principal linha de investiga\u00e7\u00e3o aponta invasores contumazes da TI, mas a pol\u00edcia n\u00e3o descarta tamb\u00e9m a possibilidade de Santos ter ferido interesses de traficantes, j\u00e1 que a regi\u00e3o abriga fac\u00e7\u00f5es criminosas e \u00e9 rota internacional de coca\u00edna, a mesma usada por contrabandistas de min\u00e9rio, madeira, peixes e ca\u00e7a retirados clandestinamente das terras protegidas.<\/p>\n<p>\u201cEle me disse que recebeu recados com amea\u00e7as. Numa das \u00faltimas vezes que falamos, contou que sabia que estava arriscando a vida. A gente tamb\u00e9m tem medo quando ouve algu\u00e9m comentar que h\u00e1 uma lista de pessoas que podem ser mortas e que a pr\u00f3xima v\u00edtima ser\u00e1 fulano de tal\u201d, diz Thod\u00e1.<\/p>\n<p>Segundo ele, o clima de tens\u00e3o e os riscos que isso representa com o desmonte da Funai j\u00e1 foram relatados ao presidente da Funai, Marcelo Xavier da Silva, mas o governo at\u00e9 agora n\u00e3o tomou provid\u00eancias.<\/p>\n<p>Em junho, no mesmo per\u00edodo previsto para deflagrar a opera\u00e7\u00e3o, segundo informe anexado no planejamento da Korubo, o ministro da Justi\u00e7a, Sergio Moro, chegou a avaliar a possibilidade de visitar Tabatinga para conhecer a tr\u00edplice fronteira. A viagem n\u00e3o se realizou, mas ele nem chegou a falar em incluir na pauta as quest\u00f5es ind\u00edgenas, cuja pol\u00edtica \u00e9 atribui\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 muita preocupa\u00e7\u00e3o nas aldeias. Ningu\u00e9m est\u00e1 satisfeito com a fala do governo\u201d, afirma Thod\u00e1, referindo-se aos sucessivos discursos do presidente Jair Bolsonaro sustentando que n\u00e3o vai demarcar nenhum cent\u00edmetro a mais de terra ind\u00edgena e que pode rever algumas demarca\u00e7\u00f5es, al\u00e9m de abrir as \u00e1reas para explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>A posi\u00e7\u00e3o assumida por Bolsonaro, segundo o ind\u00edgena, estimula invas\u00f5es. Desde abril, ele diz, garimpeiros t\u00eam assediado as aldeias, oferecendo vantagens que os caciques recusam porque n\u00e3o querem a presen\u00e7a de n\u00e3o \u00edndios em suas terras.<\/p>\n<p>A Pol\u00edcia Federal acompanha as investiga\u00e7\u00f5es sobre o assassinato de Santos e abriu inqu\u00e9rito para apurar a responsabilidade de pol\u00edticos locais, empres\u00e1rios e invasores que ocupavam as balsas incendiadas na RDS Cujubim e no vale do Javari.<\/p>\n<p>Numa das embarca\u00e7\u00f5es apreendidas pelo Ex\u00e9rcito, foi encontrado um termo de autoriza\u00e7\u00e3o municipal para pesquisa mineral, com a assinatura de um vice-prefeito da regi\u00e3o, cuja finalidade \u00e9 driblar os controles usurpando ilegalmente uma atribui\u00e7\u00e3o exclusiva da Ag\u00eancia Nacional de Minera\u00e7\u00e3o (ANM).<\/p>\n<p>Com seus 8,5 milh\u00f5es de hectares, o vale do Javari \u00e9 a segunda maior TI do Brasil e, conforme destaca o procurador Valdir Monteiro de Oliveira J\u00fanior, com base em estudo de organiza\u00e7\u00f5es internacionais, uma das dez \u201c\u00e1reas protegidas mais insubstitu\u00edveis do mundo\u201d pela diversidade de esp\u00e9cies e por abrigar a maior quantidade de povos desconhecidos do planeta.<\/p>\n<h3>\u201cOs sem-rios\u201d<\/h3>\n<p>O santu\u00e1rio amaz\u00f4nico encarna vis\u00f5es distintas de mundo: a preservacionista e de prote\u00e7\u00e3o aos \u00edndios isolados, o maior obst\u00e1culo aos criminosos, e a desenvolvimentista, representada pelos moradores dos munic\u00edpios que circundam a TI do Vale do Javari, especialmente Atalaia do Norte, Benjamin Constant e Tabatinga.<\/p>\n<p>Os conflitos se acentuaram no fim dos anos 1990, com a cria\u00e7\u00e3o de bases da Funai, guarnecida por sertanistas e \u00edndios para impedir invas\u00f5es e, mais tarde, fortalecidas pela instala\u00e7\u00e3o da Frente de Prote\u00e7\u00e3o Etnoambiental.<\/p>\n<p>Em fevereiro de 2000, um ano antes de a demarca\u00e7\u00e3o da TI do Vale do Javari ser oficializada, um grupo que se autodenominava \u201cos sem-rios\u201d, estimado em 320 homens \u2013 entre garimpeiros, ca\u00e7adores, pescadores, madeireiros e pol\u00edticos locais liderados pelo ex-prefeito de Atalaia do Norte Ros\u00e1rio Galate \u2013, em tr\u00eas grandes embarca\u00e7\u00f5es, ladeadas por pequenos barcos a motor de popa, atracaram na base Itu\u00ed e Itacoa\u00ed, dispostos a atear fogo na principal base da Funai.<\/p>\n<p>O movimento se iniciou como uma manifesta\u00e7\u00e3o de protesto pelos rios. Mas num dos barcos estavam homens armados e com um arsenal de coquet\u00e9is-molotovs. Antes que o grupo chegasse ao porto, o delegado federal Mauro Sposito, \u00e0 \u00e9poca chefe da delegacia da PF em Tabatinga, e o sertanista Sydney Possuelo, interceptaram o barco principal. Sposito passou uma metralhadora para Possuelo e subiu no barco para tentar negociar. Caso fosse agredido, o sertanista deveria disparar contra o grupo. \u201cFoi um momento de muita tens\u00e3o.<\/p>\n<p>Por sorte nossa, um helic\u00f3ptero da Pol\u00edcia Federal, que havia se deslocado para outro tipo de miss\u00e3o na regi\u00e3o, passava pela \u00e1rea. Chamei pelo r\u00e1dio e os colegas ficaram sobrevoando o barco\u201d, contou Sposito \u00e0 P\u00fablica. Aposentado, o delegado, que \u00e0 \u00e9poca relatou o epis\u00f3dio a seus superiores, mora atualmente em Manaus.<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/apublica.org\/2019\/10\/sem-apoio-do-exercito-e-com-silencio-do-ibama\/\">*Mat\u00e9ria publicada originalmente pela Ag\u00eancia P\u00fablica<\/a><\/strong><\/p>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/exame.abril.com.br\/brasil\/acao-contra-garimpo-ilegal-teria-tido-omissoes-do-ibama-e-do-exercito\/\">Fonte do artigo <\/a><br \/>\nTags:<br \/>\n#politica #political #negocios #business #marketingdigital #empreendedorismo #marketing #emprendedores #empreender #sucesso #empresas #emprendimiento #emprendedor #empreendedor #emprender #dinheiro #dinero #empresario #vendas #liderazgo #motivacion #foco #motivacao #negocio #brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A apreens\u00e3o de 60 balsas de garimpo ilegal nos rios que serpenteiam o vale do Javari e a Reserva de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel (RDS) Cujubim, no oeste do estado do Amazonas, na fronteira do Brasil com Peru e Col\u00f4mbia, entre os dias 10 e 13 de setembro, \u00e9 mais um cap\u00edtulo da resist\u00eancia do governo Jair [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":33590,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-33589","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-curso-de-copy"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/wiy.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33589","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/wiy.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/wiy.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wiy.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wiy.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=33589"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/wiy.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33589\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wiy.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/media\/33590"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/wiy.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=33589"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/wiy.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=33589"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/wiy.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=33589"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}