{"id":3126,"date":"2023-02-26T15:17:18","date_gmt":"2023-02-26T18:17:18","guid":{"rendered":"https:\/\/wiy.com.br\/noticias\/brumadinho-a-cidade-onde-todos-perderam-algo\/"},"modified":"2019-02-03T11:34:47","modified_gmt":"2019-02-03T13:34:47","slug":"brumadinho-a-cidade-onde-todos-perderam-algo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wiy.com.br\/noticias\/brumadinho-a-cidade-onde-todos-perderam-algo\/","title":{"rendered":"Brumadinho, a cidade onde todos perderam algo"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<p>Brumadim. H\u00e1 algo de intimidade na fala mineira. Em uma palavra, revela mais que um sotaque ou diminutivo. P\u00f5e para fora o acolhimento dessa gente e sua rela\u00e7\u00e3o com terra, fam\u00edlias, casas ruas e trilhas. Muito disso se perdeu na lama.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/exame.abril.com.br\/noticias-sobre\/brumadinho\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Brumadinho<\/strong><\/a> est\u00e1 viva, mas em estado de choque e, como os seus, tamb\u00e9m procura por uma carteira de identidade. A Brumadim, a cidadezinha pacata onde \u201cnada acontece nunca\u201d, viu sua mem\u00f3ria desaparecer em poucos minutos na sexta-feira, levada por uma avalanche de rejeitos. Seus 40 mil habitantes n\u00e3o reconhecem mais o rosto da cidade, que se transformou em outra coisa. E n\u00e3o sabem mais como ser\u00e1 daqui para a frente.<\/p>\n<p>No balc\u00e3o improvisado do Sindicato de Oficiais de Registro Civil de Minas Gerais, no bairro de Casa Branca, um ponto pr\u00f3ximo da barragem, duas volunt\u00e1rias est\u00e3o a postos para atender v\u00edtimas que perderam documentos. Em um formul\u00e1rio, anotam os dados das pessoas para emitir a segunda via de certid\u00f5es de nascimento e casamento. \u201cCertid\u00f5es de \u00f3bito, tamb\u00e9m\u201d, diz a atendente Denise Parreira. No primeiro dia de trabalho, s\u00f3 duas pessoas passaram por ali para pedir certid\u00f5es. \u201cEssa procura pelos documentos ainda vai demorar.\u201d<\/p>\n<div class=\"widget-news widget-box no-margin no-border\"><span class=\"widget-news-title content-box-title\">Veja tamb\u00e9m<\/span><\/p>\n<ul class=\"widget-news-list\">\n<li class=\"widget-news-item without-thumb with-border\">\n<div class=\"widget-news-info\"><a href=\"http:\/\/exame.abril.com.br\/brasil\">BRASIL<\/a><span class=\"widget-news-item-title\"><a href=\"https:\/\/exame.abril.com.br\/brasil\/forca-nacional-se-une-as-buscas-por-vitimas-em-brumadinho\/\">For\u00e7a Nacional se une \u00e0s buscas por v\u00edtimas em Brumadinho<\/a><\/span><span class=\"widget-news-item-date\">3 fev 2019 &#8211; 11h02<\/span><\/div>\n<\/li>\n<\/ul>\n<\/div>\n<p>Pela estrada de terra que leva at\u00e9 a regi\u00e3o das barragens da Vale, um grupo de mais de 20 ciclistas transpirava na manh\u00e3 de ontem. Alguns com\u00e9rcios voltaram a abrir as portas. Na noite de sexta, um restaurante, que ficou dias fechado, colocou plaqueta na porta para avisar que estava funcionando, mas que n\u00e3o haveria m\u00fasica ao vivo. \u201cEstamos em luto pelas fam\u00edlias atingidas pela trag\u00e9dia. Paz\u201d.<\/p>\n<p>Em Brumadinho, todos perderam algu\u00e9m ou alguma coisa. Por onde se olha na cidade, se colhem os relatos sobre parentes e amigos desaparecidos ou mortos. A cidade segue obstru\u00edda. As tr\u00eas principais estradas que a ligavam a outros munic\u00edpios do interior e a Belo Horizonte est\u00e3o cobertas pelo barro. Na sexta, agentes da prefeitura come\u00e7aram a retirar a lama de uma delas, na tentativa de abrir o caminho.<\/p>\n<p>Tiveram de paralisar os servi\u00e7os logo de in\u00edcio, porque encontraram uma v\u00edtima. Foi preciso chamar o Corpo de Bombeiros. Nas outras duas estradas, o prazo para recolher todo o barro ainda \u00e9 desconhecido, dado o volume descomunal do lixo podre.<\/p>\n<p>No calor dos fatos, a prefeitura da cidade jurou que, conclu\u00eddos os trabalhos de busca pelas mais de 200 pessoas que permanecem desaparecidas, a Vale ter\u00e1 de retirar cada grama de rejeito que lan\u00e7ou sobre o munic\u00edpio. A ver. Com seus 70 anos de idade, Ernestina Rodrigues de Miranda, nascida em Brumadinho, espera menos que isso. \u201cEles t\u00eam de tirar a lama, pelo menos, dos lugares pra gente passar, n\u00e3o \u00e9 mesmo? Sen\u00e3o fica dif\u00edcil demais assim.\u201d<\/p>\n<p><strong>Jil\u00f3<\/strong><\/p>\n<p>Nos pequenos s\u00edtios, trabalhadores come\u00e7am a voltar lentamente ao trabalho. O gado que sobreviveu e se espalhou pelas montanhas tem sido recolhido pelos donos. De enxada em punho, Nilton Geraldo Rodrigues capina a grama em volta de sua planta\u00e7\u00e3o de jil\u00f3, bem ao lado do lama\u00e7al da Vale. \u201cO jil\u00f3 est\u00e1 vivo, olha s\u00f3. Isso aqui, meu amigo, voc\u00ea coloca num franguinho refogado. Fica uma coisa.\u201d<\/p>\n<p>A onda de rejeitos que invadiu o s\u00edtio devastou cinco hectares de sua planta\u00e7\u00e3o de cana. A pequena lagoa onde ele pescava com os tr\u00eas netos est\u00e1 agora debaixo de mais dez metros de lama. \u201cPra n\u00f3s, tem um antes e um depois. Esse lugar nunca mais vai ser igual\u201d, diz o campon\u00eas. \u201cS\u00f3 resta pra gente trabalhar e tocar a vida.\u201d<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m mais espera que Brumadinho volte a ser a mesma cidade. Seu povo diz que, depois da cat\u00e1strofe, ser\u00e1 outra. \u201cA esperan\u00e7a \u00e9 de que volte a ser um lugar bom pra gente viver\u201d, diz Rodrigues. O desejo \u00e9 de que volte a ser Brumadim.<\/p>\n<p><strong>Ele saiu para ajudar em uma causa: salvar as abelhas<\/strong><\/p>\n<p>Um esparadrapo \u00e9 usado para fazer um \u201cX\u201d em uma \u00e1rvore que ainda est\u00e1 de p\u00e9, na beira do lama\u00e7al. Maur\u00edcio de Oliveira rastreia a vegeta\u00e7\u00e3o que n\u00e3o foi tomada pelo barro. \u00c9 o seu primeiro dia na rua, desde que recebeu a not\u00edcia de que sua irm\u00e3, Lecilda Oliveira, analista de opera\u00e7\u00f5es da Vale no C\u00f3rrego do Feij\u00e3o, est\u00e1 entre os mais de 200 desaparecidos da trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>O rapaz passou os \u00faltimos dias \u00e0 espera de not\u00edcias em casa, na companhia da m\u00e3e, que entrou em desespero ao saber da filha, mas resolveu sair para ajudar em uma causa. \u201cMinha irm\u00e3 era tudo para mim. Eu senti que precisava fazer algo, mas n\u00e3o tinha como entrar na lama. Ent\u00e3o, revolvi vir atr\u00e1s das abelhas, fazer um georreferenciamento das col\u00f4nias, para poder resgat\u00e1-las.\u201d<\/p>\n<p>Ao lado do amigo Walasse Breno, volunt\u00e1rio da Defesa Civil, Maur\u00edcio caminha pelas margens dos rejeitos \u00e0 procura das colmeias. J\u00e1 encontrou duas pela manh\u00e3, marcou os locais com fitas adesivas e fez o mapeamento com o celular. \u201cN\u00e3o est\u00e3o resgatando os animais? A abelha tamb\u00e9m \u00e9 um ser vivo que precisa ser resgatado. \u00c9 ela que vai dar continuidade a tudo, vai fazer a poliniza\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Recentemente, Maur\u00edcio montou um centro de resgate de abelhas nativas em sua casa. Ele retira as col\u00f4nias de lugares de risco, em Brumadinho, e doa os insetos para quem tiver interesse. \u201cTem muita procura. As pessoas que moram em casas e s\u00edtios gostam muito de criar a Jata\u00ed, que n\u00e3o tem ferr\u00e3o e faz um mel que \u00e9 bom para os olhos, para a pele.\u201d Segue pela mata. No dia seguinte, voltar\u00e1 para buscar seus sobreviventes.<\/p>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/exame.abril.com.br\/brasil\/brumadinho-a-cidade-onde-todos-perderam-algo\/\">Source link <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Brumadim. H\u00e1 algo de intimidade na fala mineira. Em uma palavra, revela mais que um sotaque ou diminutivo. P\u00f5e para fora o acolhimento dessa gente e sua rela\u00e7\u00e3o com terra, fam\u00edlias, casas ruas e trilhas. Muito disso se perdeu na lama. 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