{"id":27122,"date":"2023-02-26T15:02:13","date_gmt":"2023-02-26T18:02:13","guid":{"rendered":"https:\/\/wiy.com.br\/noticias\/tribo-indigena-do-mt-defende-territorio-de-invasores-por-conta-propria\/"},"modified":"2019-08-25T08:37:34","modified_gmt":"2019-08-25T11:37:34","slug":"tribo-indigena-do-mt-defende-territorio-de-invasores-por-conta-propria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wiy.com.br\/noticias\/tribo-indigena-do-mt-defende-territorio-de-invasores-por-conta-propria\/","title":{"rendered":"Tribo ind\u00edgena do MT defende territ\u00f3rio de invasores por conta pr\u00f3pria"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<p>Os<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">Tapirap\u00e9<\/span>, nome pelo qual \u00e9 conhecido o povo ind\u00edgena <strong>Apy\u00e3wa<\/strong>, est\u00e3o cansados de esperar a lei dos brancos. H\u00e1 16 anos eles aguardam a Justi\u00e7a expulsar aqueles que desmatam seu<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">territ\u00f3rio<\/span>, a Terra Ind\u00edgena (TI) Urubu Branco, localizada a cerca de 30 km da cidade mato-grossense de Confresa.<\/p>\n<p>Agora, o \u201cpovo de bom comportamento\u201d \u2013 tradu\u00e7\u00e3o literal do tupi-guarani Apy\u00e3wa \u2013 quer resolver com as pr\u00f3prias m\u00e3os o crescente desmatamento no<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">territ\u00f3rio<\/span><span>\u00a0<\/span>de 168 mil hectares.<\/p>\n<figure><img title = \"[Tags]\"alt = \"unnamed Tribo ind\u00edgena do MT defende territ\u00f3rio de invasores por conta pr\u00f3pria\"decoding=\"async\" src=\"https:\/\/abrilexame.files.wordpress.com\/2019\/08\/unnamed.gif\" \/><figcaption>&lt;span class=&quot;hidden&quot;&gt;&#8211;&lt;\/span&gt;<span class=\"copyright\">Reprodu\u00e7\u00e3o<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00c9 o que<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">conta<\/span><span>\u00a0<\/span>o cacique-geral da TI, Kamoriwai\u2019i Elber<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">Tapirap\u00e9<\/span>, que recebeu a reportagem da<span>\u00a0<\/span>Ag\u00eancia P\u00fablica\u00a0durante dez dias de visita \u00e0 Urubu Branco. Tranquilo e atencioso, Elber parecia, no entanto, preocupado ao explicar a situa\u00e7\u00e3o que seu povo enfrenta.<\/p>\n<p>\u201cA gente acha que tem que esperar a Justi\u00e7a para n\u00e3o ter nenhum problema, mas os guerreiros querem obrigar as pessoas a sa\u00edrem\u201d, explica.<\/p>\n<p>Segurando a borduna entalhada na madeira rubra que nomeia o pa\u00eds, o cacique reitera o significado de s\u00e9culos da luta ind\u00edgena.<\/p>\n<p>\u201cO desmatamento compromete toda nossa cultura. Mesmo comunicando todas as autoridades, ele j\u00e1 acontece h\u00e1 anos,<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">por<\/span><span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">conta<\/span><span>\u00a0<\/span>da morosidade da Justi\u00e7a\u201d, lamenta.<\/p>\n<p>O respeito pela Justi\u00e7a brasileira h\u00e1 anos rege a estrat\u00e9gia dos<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">Tapirap\u00e9<\/span>, mas est\u00e1 cada mais dif\u00edcil acalmar a ansiedade dos jovens, que assistem \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o da floresta enquanto os fazendeiros travam uma batalha judicial de quase duas d\u00e9cadas para permanecer criando gado e s\u00e3o cada vez mais numerosos os que derrubam a floresta de transi\u00e7\u00e3o entre cerrado e <strong><a href=\"https:\/\/exame.abril.com.br\/noticias-sobre\/amazonia\/\">Amaz\u00f4nia<\/a><\/strong> que comp\u00f5e a Urubu Branco. J\u00e1 se ouve o som das motosserras na aldeia principal, a Tapit\u00e3wa.<\/p>\n<p>Para tentarem deter o desmatamento, os ind\u00edgenas pretendem construir mais duas aldeias na parte norte da TI, onde os fazendeiros abriram pistas de pouso para avi\u00f5es e o pau-brasil j\u00e1 est\u00e1 se tornando escasso. O plano \u00e9 fiscalizar o<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">territ\u00f3rio<\/span><span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">por<\/span><span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">conta<\/span><span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">pr\u00f3pria<\/span><span>\u00a0<\/span>pelo menos enquanto a Justi\u00e7a n\u00e3o vem.<\/p>\n<p>Uma estrat\u00e9gia perigosa, que coloca em risco a vida dos ind\u00edgenas, segundo o coordenador das Coordena\u00e7\u00f5es T\u00e9cnicas Locais (CTL) da Funai em Confresa, Marcelino Martino dos Santos Filho. Conhecido como Dudu, ele \u00e9 o \u00fanico dos oito funcion\u00e1rios que faziam a fiscaliza\u00e7\u00e3o di\u00e1ria da TI que continua a trabalhar no<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">territ\u00f3rio<\/span><span>\u00a0<\/span>Urubu Branco.<\/p>\n<p>\u201cTem dia que n\u00e3o tem verba para comprar papel. Fica dif\u00edcil trabalhar\u201d, afirma o funcion\u00e1rio, que est\u00e1 sozinho desde 2017 e pretende se aposentar no ano que vem, agravando a desesperan\u00e7a dos<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">Tapirap\u00e9<\/span>.<\/p>\n<p>Ao longo da \u00faltima d\u00e9cada, as lideran\u00e7as<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">Tapirap\u00e9<\/span><span>\u00a0<\/span>sofreram uma s\u00e9rie de amea\u00e7as de morte e tentativas de homic\u00eddio, que atribuem aos fazendeiros e posseiros que ocupam a \u00e1rea norte da Urubu Branco.<\/p>\n<p>Em 2002, a desintrus\u00e3o do<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">territ\u00f3rio<\/span><span>\u00a0<\/span>foi decidida no julgamento de uma a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica, que provocou uma s\u00e9rie de recursos judiciais dos n\u00e3o ind\u00edgenas com o objetivo de permanecer na TI.<\/p>\n<p>Agora, o procurador federal junto \u00e0 Funai, Lusmar Soares Filho, pretende entrar com nova liminar pedindo a retirada imediata daqueles que n\u00e3o t\u00eam recursos pendentes na Justi\u00e7a.<\/p>\n<p>A<span>\u00a0<\/span>P\u00fablica\u00a0testemunhou o clima de desespero entre os<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">Tapirap\u00e9<\/span><span>\u00a0<\/span>com a rapidez do desmatamento em contraste com a morosidade da Justi\u00e7a. A mem\u00f3ria da quase extin\u00e7\u00e3o do povo ainda \u00e9 v\u00edvida na Urubu Branco. Em meados do s\u00e9culo 20, ap\u00f3s o contato com doen\u00e7as dos n\u00e3o ind\u00edgenas e guerras com outros povos origin\u00e1rios, a popula\u00e7\u00e3o local chegou a se reduzir a 40 pessoas.<\/p>\n<p>A recupera\u00e7\u00e3o do povo, hoje com 800 moradores na TI., est\u00e1 diretamente ligada \u00e0 reconquista do<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">territ\u00f3rio<\/span>, o que n\u00e3o \u00e9 bem compreendido pelos n\u00e3o ind\u00edgenas, como diz Kaorewyei Reginaldo<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">Tapirap\u00e9<\/span>, ex-cacique e presidente da Coordena\u00e7\u00e3o de Organiza\u00e7\u00f5es dos Povos Ind\u00edgenas Apy\u00e3wa.<\/p>\n<p>Muita gente pergunta para que o \u00edndio quer terra, \u201cacham que isso atrapalha o desenvolvimento\u201d,<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">conta<\/span>. \u201cN\u00e3o entendem como os povos ind\u00edgenas usam a terra. A terra \u00e9 o principal regulador da humanidade, \u00e9 dela que tiramos toda nossa vida\u201d, diz.<\/p>\n<p>Como explicou o professor Nivaldo Korira\u2019i<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">Tapirap\u00e9<\/span>, em uma aula sobre aquecimento global para jovens do primeiro ano do ensino m\u00e9dio na Escola Estadual Ind\u00edgena Tapita\u2019wa, alguns brancos pensam s\u00f3 no presente. \u201cN\u00f3s, povos ind\u00edgenas, pensamos no presente e no futuro.\u201d<\/p>\n<h3>Corte ilegal e trabalho escravo<\/h3>\n<p>No primeiro semestre deste ano, foram realizadas quatro opera\u00e7\u00f5es para combater o desmatamento ilegal no<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">territ\u00f3rio<\/span><span>\u00a0<\/span>dos<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">Tapirap\u00e9<\/span>. No dia 5 de abril, uma a\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal (PF) prendeu quatro pessoas extraindo pau-brasil na TI.<\/p>\n<p>Um m\u00eas depois, a Pol\u00edcia Militar, em uma opera\u00e7\u00e3o conjunta com o Ibama, prendeu mais 12 homens dentro da \u00e1rea. Na ocasi\u00e3o, os policiais relataram que os trabalhadores que cortavam a floresta foram encontrados em situa\u00e7\u00e3o an\u00e1loga \u00e0 escravid\u00e3o, tendo sido trazidos de Minas Gerais pelos madeireiros.<\/p>\n<p>Na opera\u00e7\u00e3o foram apreendidas tr\u00eas espingardas de fabrica\u00e7\u00e3o artesanal e uma espingarda calibre 32 com 18 cartuchos. De acordo com Leandro da Silva, chefe da Unidade T\u00e9cnica do Ibama de Barra do Gar\u00e7as, respons\u00e1vel<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">por<\/span><span>\u00a0<\/span>todo o Alto Araguaia, a opera\u00e7\u00e3o chegou a localizar o chefe dos trabalhadores, um homem identificado como Frederico Bandeira de Alencar, que fugiu em uma caminhonete Hilux. Ap\u00f3s persegui\u00e7\u00e3o, o ve\u00edculo foi encontrado, com a documenta\u00e7\u00e3o, abandonado no meio da mata.<\/p>\n<p>Leandro destaca a condi\u00e7\u00e3o desumana na qual os trabalhadores dos madeireiros foram encontrados. \u201cEles ficam igual caranguejo, comendo na lama, dormindo em barracos\u201d,<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">conta<\/span>, destacando, entretanto, que n\u00e3o compete ao Ibama avaliar a condi\u00e7\u00e3o an\u00e1loga \u00e0 escravid\u00e3o. Como estavam derrubando a mata ilegalmente, os trabalhadores foram presos provisoriamente no pres\u00eddio de Porto Alegre do Norte, de onde j\u00e1 foram liberados.<\/p>\n<p>Em depoimento, alegaram que Frederico, o chefe deles, trabalhava para um homem chamado Ailton. De acordo com Leandro, ap\u00f3s a opera\u00e7\u00e3o, ele localizou um registro de propriedade no Cadastro Ambiental Rural (CAR), no local do desmatamento. A propriedade, dentro da TI, est\u00e1 no nome de Ailton de Paula Souza. Foram lavrados autos de infra\u00e7\u00e3o\u00a0<span class=\"il\">por<\/span><span>\u00a0<\/span>crime ambiental em nome de Frederico e Ailton.<\/p>\n<p>No ano passado, o Ibama j\u00e1 havia multado\u00a0em R$ 3,5 milh\u00f5es um madeireiro identificado como Edimar Lima da Silva, apontado como respons\u00e1vel pela destrui\u00e7\u00e3o de mais de 800 hectares de floresta nativa na TI Urubu Branco.<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o foi planejada ap\u00f3s relatos de funcion\u00e1rios da Funai dando<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">conta<\/span><span>\u00a0<\/span>de que caminh\u00f5es carregados de madeira eram vistos saindo do<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">territ\u00f3rio<\/span>.<\/p>\n<p>Na ocasi\u00e3o, os agentes ambientais desativaram um acampamento e tr\u00eas casas constru\u00eddas dentro da TI, segundo o agente do Ibama. De acordo com Leandro, a \u00e1rea autuada em nome de Edimar em 2018 tamb\u00e9m fica dentro do pol\u00edgono declarado no nome de Ailton, e portanto outra multa no mesmo valor seria aplicada ao \u201cpropriet\u00e1rio\u201d.<\/p>\n<p>Apenas cinco dias ap\u00f3s a opera\u00e7\u00e3o, os ind\u00edgenas voltaram a ouvir o ronco das motosserras, e algumas lideran\u00e7as resolveram procurar, a p\u00e9, outros madeireiros. Encontraram mais um grupo que fugiu ao perceber a presen\u00e7a dos<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">Tapirap\u00e9<\/span>, conforme o<span>\u00a0<\/span><a href=\"https:\/\/apublica.us8.list-manage.com\/track\/click?u=47bdda836f3b890e13c9f416d&amp;id=8e60b86428&amp;e=38ddf01f7b\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Boletim de Ocorr\u00eancia (BO)<\/a>\u00a0registrado pelos ind\u00edgenas na delegacia da Pol\u00edcia Judici\u00e1ria Civil de Confresa.<\/p>\n<p>Eles s\u00f3 conseguiram capturar um deles, Emerson Gilmar de Souza, que foi imobilizado e levado at\u00e9 a takana, a casa espiritual da aldeia Tapit\u00e3wa, onde foi pintado com jenipapo e posteriormente levado para a delegacia, sem sinais de les\u00f5es, segundo o BO.<\/p>\n<p>O cacique Makapyxowa Valdemar<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">Tapirap\u00e9<\/span>, da aldeia Kara\u2019ytawa, ou Santa Laura,<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">conta<\/span><span>\u00a0<\/span>que, mesmo idoso, participou da busca aos madeireiros.<\/p>\n<p>Na regi\u00e3o onde Emerson foi encontrado, h\u00e1 duas cachoeiras sagradas para os<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">Tapirap\u00e9<\/span>, explica o cacique. \u201cL\u00e1 tem os esp\u00edritos das nossas crian\u00e7as, temos muito respeito<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">por<\/span><span>\u00a0<\/span>esse lugar, e o desmatamento t\u00e1 chegando muito perto.\u201d<\/p>\n<p>Conforme registrado no<span>\u00a0<\/span><a href=\"https:\/\/apublica.us8.list-manage.com\/track\/click?u=47bdda836f3b890e13c9f416d&amp;id=e5c56951aa&amp;e=38ddf01f7b\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">BO<\/a>, os ind\u00edgenas contaram que Emerson mencionou apenas o apelido do seu chefe, Pez\u00e3o, quando questionado para quem trabalhava.<\/p>\n<p>O documento diz que essa \u00e9 a alcunha de Adejair Lima da Silva, morador da vila de Veran\u00f3polis, na zona rural de Confresa. Em 2011, Adejair havia sido preso provisoriamente como um dos suspeitos pelo assassinato de Antenor Luiz Chiossi, supostamente em uma emboscada. Chiossi,<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">por<\/span><span>\u00a0<\/span>sua vez, j\u00e1 havia sido autuado pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Mato Grosso (Sema) pelo menos duas vezes<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">por<\/span><span>\u00a0<\/span>crimes ambientais.<\/p>\n<p>Pez\u00e3o teve um habeas corpus negado<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">por<\/span><span>\u00a0<\/span>unanimidade tamb\u00e9m em 2011<strong>.<\/strong>\u00a0Segundo os ind\u00edgenas e a Funai, no entanto, ele continua solto, ainda vivendo na vila pr\u00f3xima \u00e0 TI. \u201c\u00c9 um cara muito teimoso, a PF j\u00e1 conhece. Ele joga os pe\u00f5es l\u00e1 dentro e a madeira j\u00e1 sai trabalhada para transportar para o Tocantins\u201d, afirma Dudu.<\/p>\n<p>Na \u00faltima semana de junho, logo antes da visita da reportagem ao local, a Pol\u00edcia Civil de Confresa e a Funai fizeram outra opera\u00e7\u00e3o na TI, dessa vez localizando apenas toras de madeiras rec\u00e9m-cortadas.<\/p>\n<p>O coordenador da Funai em Confresa relata que os caminh\u00f5es de madeira saem da TI Urubu Branco principalmente aos domingos \u00e0 noite e nos feriados, \u201cquando n\u00e3o tem ningu\u00e9m autuando\u201d.<\/p>\n<p>\u201cSe a PF, o Ibama e a Funai fizessem uma opera\u00e7\u00e3o grande,<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">por<\/span><span>\u00a0<\/span>muitos dias, e pagassem os cabe\u00e7as, que os ju\u00edzes j\u00e1 sabem quem s\u00e3o, dava uma parada no desmatamento\u201d, diz. Dudu acrescenta que, ap\u00f3s a \u00faltima opera\u00e7\u00e3o, em junho, os ind\u00edgenas foram ao local retirar parte da madeira encontrada. \u201cTeve \u00edndio que pisou em madeira com raiva, outros choraram\u201d, relata.<\/p>\n<p>O cacique Valdemar relata que, entre as principais consequ\u00eancias do desmatamento na regi\u00e3o, est\u00e1 a diminui\u00e7\u00e3o da ca\u00e7a. O povo<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">Tapirap\u00e9<\/span><span>\u00a0<\/span>\u00e9 conhecido pelas tradi\u00e7\u00f5es festivas e religiosas, bem como pela pr\u00e1tica da ca\u00e7a tradicional. \u201cQuanto mais n\u00f3s esperarmos, vai acabar essa mata toda\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Elber<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">conta<\/span><span>\u00a0<\/span>que a queixada, conhecida como \u201cporc\u00e3o\u201d, uma das principais fontes de prote\u00edna dos<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">Tapirap\u00e9<\/span>, j\u00e1 est\u00e1 dif\u00edcil de ser encontrada dentro da TI.<\/p>\n<p>\u201cQuando havia cobertura vegetal completa, e a gente sa\u00eda para a ca\u00e7ada, em meio dia ou meia hora a gente conseguia achar animal. Hoje voc\u00ea leva dois ou tr\u00eas dias para conseguir matar um animal. Tem vezes que a gente volta sem nada\u201d.<\/p>\n<h3><a><\/a>Intimida\u00e7\u00f5es, amea\u00e7as e atentados<\/h3>\n<p>A Pol\u00edcia Civil de Confresa e a Funai t\u00eam orientado os<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">Tapirap\u00e9<\/span>,<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">por<\/span><span>\u00a0<\/span>seguran\u00e7a, a n\u00e3o montar opera\u00e7\u00f5es aut\u00f4nomas para buscar os<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">invasores<\/span><span>\u00a0<\/span>de seus territ\u00f3rios.<\/p>\n<p>De acordo com o cacique Elber, desde a homologa\u00e7\u00e3o da terra, a cada opera\u00e7\u00e3o feita<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">por<\/span><span>\u00a0<\/span>ind\u00edgenas ou oficiais para prender<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">invasores<\/span>, h\u00e1 algum tipo de conflito ou amea\u00e7as como retalia\u00e7\u00e3o. \u201cSempre que agimos<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">por<\/span><span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">conta<\/span>, as pessoas reagem com mais viol\u00eancia. Ficam com raiva, perseguem lideran\u00e7as.\u201d<\/p>\n<p>Elber teme que, para al\u00e9m do conflito fundi\u00e1rio, a popula\u00e7\u00e3o seja incitada a ser mais violenta com os ind\u00edgenas. \u201cSentimos que esse governo est\u00e1 incentivando o preconceito que j\u00e1 existe contra os ind\u00edgenas. Agora, com a possibilidade de armamento, temos ainda mais medo de acontecer uma viol\u00eancia contra as lideran\u00e7as e o povo<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">Tapirap\u00e9<\/span>.\u201d<\/p>\n<p><a><\/a>As principais amea\u00e7as t\u00eam ocorrido fora da TI, na estrada de ch\u00e3o que leva \u00e0 \u00e1rea urbana de Confresa ou quando os ind\u00edgenas est\u00e3o na cidade.<\/p>\n<p>Em agosto do ano passado, a ind\u00edgena Josinete<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">Tapirap\u00e9<\/span><span>\u00a0<\/span>aguardava o marido, Aguinaldo, que estava na fila do banco, em Confresa, quando um homem a abordou para perguntar de onde ela era. Quando respondeu que vivia na Urubu Branco, ele alertou, ir\u00f4nico: \u201cCuidado, a on\u00e7a vai ficar esperando voc\u00eas voltarem\u201d, afirma a ind\u00edgena. \u201cEle falou que, se a gente voltasse tarde, a on\u00e7a estaria com fome.\u201d<\/p>\n<p>Ela avisou o marido na hora, e ele percebeu que o homem estava falando sobre o pr\u00f3prio rev\u00f3lver. \u201cEle falou que ia nos esperar toda a tarde e \u00e0 noite, no caminho da entrada da TI.\u201d O casal deixou o banco e foi embora na hora, sem cumprir outros compromissos que tinham na cidade. \u201cQuando eu lembro disso, n\u00e3o quero mais voltar para Confresa\u201d, diz Aguinaldo.<\/p>\n<p>Em janeiro de 2018, o professor ind\u00edgena Daniel Kabixana, que vivia na Aldeia Hawalora, foi assassinado a pedradas<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">por<\/span><span>\u00a0<\/span>dois jovens ap\u00f3s sair de um bar onde assistia a um jogo de futebol. Em entrevista concedida a um ve\u00edculo local, ap\u00f3s serem presos, os jovens afirmaram que abordaram o ind\u00edgena para roubar sua motocicleta e R$ 20.<\/p>\n<p>Eles disseram que fingiram ser policiais para abordar Kabixana e que resolveram matar \u201co \u00edndio\u201d para ele n\u00e3o denunciar o roubo. Ap\u00f3s o assassinato, os<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">Tapirap\u00e9<\/span><span>\u00a0<\/span>fizeram uma manifesta\u00e7\u00e3o em frente \u00e0 delegacia de Confresa.<\/p>\n<p>Apesar de o assassinato n\u00e3o ter sido considerado crime de \u00f3dio ou parte do conflito fundi\u00e1rio, Eunice Dias de Paula, do Conselho Indigenista Mission\u00e1rio (Cimi), afirma que a expans\u00e3o do agroneg\u00f3cio na regi\u00e3o e o transporte de soja ap\u00f3s o asfaltamento da BR-158 est\u00e3o interferindo diretamente no aumento da criminalidade do munic\u00edpio.<\/p>\n<p>A soja \u00e9 escoada para o porto de Itaqui (MA), e nesse contexto muitos caminhoneiros se hospedam na cidade, esperando o desafogamento do tr\u00e2nsito no porto.<\/p>\n<p>\u201cImagine cem carretas<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">por<\/span><span>\u00a0<\/span>dia em uma cidade pequena. Aumentou muito o n\u00famero de bares, a prostitui\u00e7\u00e3o, inclusive infantil, e o n\u00edvel de viol\u00eancia no geral. A morte do professor est\u00e1 dentro deste contexto\u201d, opina.<\/p>\n<p>As persegui\u00e7\u00f5es j\u00e1 duram mais de uma d\u00e9cada, e parecem estar relacionadas \u00e0 desintrus\u00e3o da terra ind\u00edgena. Em 2008, quando estava em uma padaria com seu filho, Elber foi amea\u00e7ado<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">por<\/span><span>\u00a0<\/span>outros clientes, armados, que afirmaram ser f\u00e1cil assassin\u00e1-los no caminho de volta \u00e0 TI. \u201cDisseram que a cidade n\u00e3o era aldeia\u201d,<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">conta<\/span>.<\/p>\n<p>Outro l\u00edder dos<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">Tapirap\u00e9<\/span><span>\u00a0<\/span>que afirma ter sofrido persegui\u00e7\u00e3o \u00e9 Reginaldo. Formado em geografia pela Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), ele<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">conta<\/span><span>\u00a0<\/span>que, tamb\u00e9m em 2009, costumava trabalhar e dormir no polo base da Secretaria de Sa\u00fade Ind\u00edgena (Sesai) em Confresa, quando, uma noite, voltando de uma reuni\u00e3o em Bras\u00edlia, recebeu uma liga\u00e7\u00e3o do ent\u00e3o administrador local da Funai, Georthon Aur\u00e9lio Lima Brito, avisando-o de que ele n\u00e3o poderia dormir na cidade. O coordenador havia recebido amea\u00e7as<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">por<\/span><span>\u00a0<\/span>telefone.<\/p>\n<p>Na mesma noite, o polo base foi depredado com peda\u00e7os de pau, tendo portas e janelas quebradas. \u201cL\u00e1 tinham coisas de valor, telefone, computador, e n\u00e3o roubaram nada. Arrebentaram a janela onde eu dormia\u201d,<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">conta<\/span><span>\u00a0<\/span>Reginaldo. Naquele ano, uma for\u00e7a-tarefa formada pela PF, o Ibama e a Funai planejava uma a\u00e7\u00e3o para retirar os<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">invasores<\/span>da TI.<\/p>\n<p>O l\u00edder ind\u00edgena explica que, na \u00e9poca, havia sido procurado<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">por<\/span><span>\u00a0<\/span>representantes dos<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">invasores<\/span><span>\u00a0<\/span>da TI para fazer algum tipo de acordo financeiro que possibilitasse a perman\u00eancia deles no<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">territ\u00f3rio<\/span>. Ele acredita que a negativa os teria enfurecido.<\/p>\n<p>Em 24 de outubro do mesmo ano, a base de fiscaliza\u00e7\u00e3o da Funai dentro da Urubu Branco foi alvejada pelos<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">invasores<\/span>. \u201cUm dos tiros quase acertou um<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">Tapirap\u00e9<\/span><span>\u00a0<\/span>que se encontrava na varanda da casa. Eles estavam atirando de cima de um morro que est\u00e1 pr\u00f3ximo \u00e0 casa, o que faz pensar que possu\u00edam armas de longo alcance\u201d, destaca um relato de Eunice e de seu marido, Luiz Gouv\u00eaa de Paula, tamb\u00e9m integrante do Cimi. H\u00e1 40 anos o casal trabalha diretamente na Urubu Branco.<\/p>\n<p>O coordenador da CTL da Funai, Dudu, um dos funcion\u00e1rios presentes na base da TI na ocasi\u00e3o, diz que tamb\u00e9m sofreu outras amea\u00e7as ao longo dos quase dez anos em que atua com os<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">Tapirap\u00e9<\/span>.<\/p>\n<p>\u201cTeve uma vez que nosso carro foi queimado. Os meninos foram fazer uma incurs\u00e3o e o pneu furou. Eles deixaram o carro l\u00e1 e, quando voltaram, estava em chamas. Eu passei quatro anos trabalhando sem carro aqui, depois disso,<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">por<\/span><span>\u00a0<\/span>falta de verba. Eu n\u00e3o saio \u00e0 noite daqui. Se der bobeira, no outro dia voc\u00ea n\u00e3o amanhece vivo\u201d, prenuncia.<\/p>\n<p>No ano seguinte, em 2010, um primo de Elber, o ent\u00e3o cacique Xario\u2019i Carlos<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">Tapirap\u00e9<\/span>, sofreu uma tentativa de homic\u00eddio enquanto estava na garupa de uma moto pilotada<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">por<\/span><span>\u00a0<\/span>seu irm\u00e3o, Makarore Demilson, no caminho da aldeia para a cidade.<\/p>\n<p>\u201cAtropelaram a gente com outra moto, bateram atr\u00e1s e quase nos mataram. Eu quebrei minha clav\u00edcula, fiquei cinco meses de repouso. Depois eles sa\u00edram.\u201d<\/p>\n<p>O ex-cacique destaca que n\u00e3o conseguiu ver o rosto dos dois homens que os atropelaram, apenas a cor vermelha da moto e as armas que portavam na cintura, mas acredita que tenham sido dois dos<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">invasores<\/span><span>\u00a0<\/span>da \u00e1rea norte.<\/p>\n<p>\u201cNa \u00e9poca, estava tendo muita derrubada na mata e tinham prendido alguns pe\u00f5es. Acho que, se n\u00e3o estiv\u00e9ssemos j\u00e1 pr\u00f3ximos da cidade, eles teriam tentado atirar em n\u00f3s\u201d, lembra.<\/p>\n<p>Depois do ocorrido, Carlos fez um BO, mas ningu\u00e9m foi preso. Ele<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">conta<\/span><span>\u00a0<\/span>que, desde ent\u00e3o, frequenta menos a cidade. \u201cNesse dia mudei muito. Fiquei com medo porque aqui a viol\u00eancia \u00e9 intensa.\u201d<\/p>\n<p>Os caciques da TI Urubu Branco orientam o povo<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">Tapirap\u00e9<\/span><span>\u00a0<\/span>a n\u00e3o frequentar a cidade depois do anoitecer, al\u00e9m de n\u00e3o deixar o<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">territ\u00f3rio<\/span><span>\u00a0<\/span>ind\u00edgena sem companhia e nunca beber na cidade.<\/p>\n<h3>Sem norte<\/h3>\n<p>A TI Urubu Branco foi demarcada em 1993 e homologada em 1998. Na \u00e9poca, dezenas de grandes fazendeiros e grileiros viviam em seu<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">territ\u00f3rio<\/span>. Enquanto parte deles aceitou a indeniza\u00e7\u00e3o dada pela Funai e deixou a \u00e1rea, outra parte, formada<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">por<\/span><span>\u00a0<\/span>quatro fam\u00edlias, questionou o valor, alegando que as benfeitorias que possu\u00edam valiam mais.<\/p>\n<p>Durante a a\u00e7\u00e3o de desintrus\u00e3o da \u00e1rea, realizada finalmente em 2002, ap\u00f3s a decis\u00e3o liminar da a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica, os fazendeiros recorreram, pedindo a revis\u00e3o do limite da TI.<\/p>\n<p>Eles alegaram ainda que os ind\u00edgenas estavam destruindo suas propriedades, a fazenda Mata Norte, da fam\u00edlia de Elenilza Borges de Rezende; a fazenda S\u00e3o Francisco, da fam\u00edlia de Francisco Pereira Artiaga; a fazenda Nova Zel\u00e2ndia, da fam\u00edlia de Seles Pereira Neto; e a fazenda Jacarand\u00e1, da fam\u00edlia de Ari Lu\u00eds Sehn.<\/p>\n<p>Os propriet\u00e1rios entraram com a a\u00e7\u00e3o juntos,<span>\u00a0<\/span><a href=\"https:\/\/apublica.us8.list-manage.com\/track\/click?u=47bdda836f3b890e13c9f416d&amp;id=786fef8d8b&amp;e=38ddf01f7b\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">contratando<\/a>, \u00e0 \u00e9poca, o advogado Luiz Carlos da Silva Lima, conhecido como Milit\u00e3o.<\/p>\n<p>Jurista renomado, que chegou a ocupar uma cadeira na Academia Goiana de Direito, Milit\u00e3o faleceu em um acidente a\u00e9reo em 2010. Ele foi o fundador da Associa\u00e7\u00e3o dos Fazendeiros do Araguaia e do Xingu (Asfax), em 1980.<\/p>\n<p>No livro<span>\u00a0<\/span><em>Donos de terras: trajet\u00f3ria da Uni\u00e3o Democr\u00e1tica Ruralista (UDR)<\/em>, a Asfax \u00e9 citada como uma das organiza\u00e7\u00f5es presentes na reuni\u00e3o de forma\u00e7\u00e3o da radical associa\u00e7\u00e3o patronal, em 1985.<\/p>\n<p>A UDR j\u00e1 teve um de seus ex-presidentes, Marcos Prochet, condenado a 15 anos de pris\u00e3o pelo assassinato do agricultor sem-terra Sebasti\u00e3o Camargo, em 1998, durante o despejo da fazenda Boa Sorte, no Paran\u00e1.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de advogar pelos fazendeiros que ocupam a \u00e1rea norte da TI Urubu Branco, Milit\u00e3o ficou conhecido<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">por<\/span><span>\u00a0<\/span>representar os fazendeiros nos conflitos de demarca\u00e7\u00e3o da TI Xavante Mar\u00e3iwats\u00e9d\u00e9, antiga fazenda Sui\u00e1 Miss\u00fa, em S\u00e3o F\u00e9lix do Araguaia.<\/p>\n<p>Hoje, a vi\u00fava de Milit\u00e3o, Sandra Caetano Lima, e sua filha, Maria Tereza Caetano, s\u00e3o as advogadas respons\u00e1veis<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">por<\/span><span>\u00a0<\/span>defender os fazendeiros na Urubu Branco.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 a primeira vez que a filha segue os passos do pai. Em 2001, Maria Tereza<span>\u00a0<\/span><a href=\"https:\/\/apublica.us8.list-manage.com\/track\/click?u=47bdda836f3b890e13c9f416d&amp;id=6b02520642&amp;e=38ddf01f7b\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">representou<\/a><span>\u00a0<\/span>a empresa Jatob\u00e1 Agricultura e Pecu\u00e1ria contra a Funai, questionando a demarca\u00e7\u00e3o da TI Kaiow\u00e1 Potrero Gua\u00e7u, em Dourados (MS).<\/p>\n<p>Na \u00e9poca da desintrus\u00e3o da TI Urubu Branco, o desembargador Souza Prudente acatou parcialmente o recurso dos fazendeiros, em uma decis\u00e3o liminar, para que eles pudessem manter suas propriedades intactas at\u00e9 que a per\u00edcia confirmasse seus valores.<\/p>\n<p>Segundo o procurador Lusmar Soares Filho, respons\u00e1vel pela a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica de 2002, com o deferimento parcial em segunda inst\u00e2ncia, os fazendeiros voltaram \u201ccom tudo\u201d. \u201cA interpreta\u00e7\u00e3o deles \u00e9 que tinham ganho a causa\u201d, explica.<\/p>\n<p>Finalmente, em 2017, o magistrado Souza Prudente julgou o m\u00e9rito do agravo dos posseiros, pedindo a desintrus\u00e3o. Com o passar dos anos, boa parte do pagamento da indeniza\u00e7\u00e3o se tornou nulo, diante das multas ambientais devidas pelos fazendeiros.<span>\u00a0<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/apublica.us8.list-manage.com\/track\/click?u=47bdda836f3b890e13c9f416d&amp;id=11bff82ffd&amp;e=38ddf01f7b\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Elenilza Borges de Rezende e sua fam\u00edlia<\/a>,<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">por<\/span><span>\u00a0<\/span>exemplo, devem o equivalente ao desmatamento de mais de 900 hectares de mata nativa.<\/p>\n<p>Questionado sobre a demora da Justi\u00e7a, em reuni\u00e3o com as lideran\u00e7as<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">Tapirap\u00e9<\/span><span>\u00a0<\/span>no centro da TI Urubu Branco, no dia 7 de julho passado, o procurador afirmou que acredita que houve \u201cneglig\u00eancia<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">por<\/span><span>\u00a0<\/span>quem continuou o processo\u201d e, tamb\u00e9m, \u201cfalta de argumento<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">por<\/span><span>\u00a0<\/span>parte do TRF-1. Mas o pessoal voltou n\u00e3o s\u00f3 para ocupar as casas, mas com tudo e com mais gente. A\u00ed a Funai colocou uma base de fiscaliza\u00e7\u00e3o e perdeu o controle. Pela defici\u00eancia e falta de recurso no \u00f3rg\u00e3o, n\u00e3o manteve essa base cont\u00ednua e o pessoal voltou a invadir. Isso se passou 16 anos.\u201d<\/p>\n<p>A cada pessoa intimada a deixar sua casa, novos recursos de apela\u00e7\u00e3o podem ser interpostos. Foi o que ocorreu dias antes da visita de Lusmar \u00e0 TI. Em 2 de julho, o desembargador federal Jirair Aram Meguerian suspendeu o cumprimento da senten\u00e7a de desocupa\u00e7\u00e3o da \u00e1rea, acatando outro recurso interposto pelos<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">invasores<\/span>.<\/p>\n<p>Desde a \u00faltima desintrus\u00e3o na TI Urubu Branco, entretanto, as propriedades asseguradas pela liminar foram arrendadas e invadidas<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">por<\/span><span>\u00a0<\/span>outros posseiros. \u201cH\u00e1, inclusive, muitos conflitos fundi\u00e1rios entre posseiros dentro da \u00e1rea ind\u00edgena, muito neg\u00f3cio sendo feito, arrendamento\u201d, explica Lusmar.<\/p>\n<p>O procurador visitou todas as delegacias da regi\u00e3o do Alto Araguaia e mapeou cerca de 80 procedimentos criminais instaurados<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">por<\/span><span>\u00a0<\/span>crimes praticados dentro da TI nos \u00faltimos anos, que v\u00e3o desde danos ambientais at\u00e9 o homic\u00eddio de um posseiro.<\/p>\n<p>O \u00faltimo levantamento da Funai para mapear os fazendeiros e posseiros que vivem dentro da TI foi em 2016 e mapeou quase 200 ocupantes ilegais, segundo Dudu. O coordenador da CTL da Funai calcula que h\u00e1 mais de 10 mil cabe\u00e7as de gado sendo criadas na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Hoje, a ocupa\u00e7\u00e3o na \u00e1rea norte do<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">territ\u00f3rio<\/span><span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">Tapirap\u00e9<\/span>, mesmo ilegal, j\u00e1 \u00e9 abastecida com energia el\u00e9trica pela Energisa e<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">por<\/span><span>\u00a0<\/span>uma torre de internet da Oi.<\/p>\n<p>\u201cEles est\u00e3o completamente estruturados, enquanto os \u00edndios perdem parte de seu<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">territ\u00f3rio<\/span><span>\u00a0<\/span>e sofrem com a imin\u00eancia de um conflito, n\u00e3o podem ca\u00e7ar, coletar frutos ou andar<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">por<\/span><span>\u00a0<\/span>l\u00e1 sem serem amea\u00e7ados.\u201d<\/p>\n<p>Lusmar acrescenta que os<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">invasores<\/span><span>\u00a0<\/span>t\u00eam consci\u00eancia de que a \u00e1rea \u00e9 demarcada, mas fazem uso \u201cdos muitos instrumentos legais para protelar a sa\u00edda o m\u00e1ximo que puderem\u201d e, assim, obt\u00eam mais lucro. \u201c\u00c9 uma regi\u00e3o rica, eles v\u00e3o protelando e lucrando. S\u00e3o fortes porque os mais fracos n\u00e3o recorrem\u201d, opina.<\/p>\n<p>Desde a visita recente \u00e0 TI Urubu Branco, o procurador da Funai re\u00fane documentos para fundamentar outra a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica, que consiga expulsar do<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">territ\u00f3rio<\/span><span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">Tapirap\u00e9<\/span><span>\u00a0<\/span>pelo menos aqueles que n\u00e3o est\u00e3o assegurados<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">por<\/span><span>\u00a0<\/span>recursos. A ideia \u00e9 entrar com um pedido de liminar, entendendo a urg\u00eancia para a desintrus\u00e3o da \u00e1rea.<\/p>\n<p>Caso seja acatada pelo juiz, a a\u00e7\u00e3o de tutela antecipada pode correr em menos de um m\u00eas, pedindo a desocupa\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria da TI. \u201cTemos que tomar uma medida urgente para evitar um conflito entre ind\u00edgenas e<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">invasores<\/span>\u201d, afirma Lusmar.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s explicar a proposta para os<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">Tapirap\u00e9<\/span>, debaixo do sol quente e ar empoeirado do Alto Araguaia, o procurador tentou melhorar o humor dos ind\u00edgenas, cujas falas se dividiram entre cr\u00edtica e concilia\u00e7\u00e3o com as d\u00e9cadas de lapso jur\u00eddico, pedindo a forma\u00e7\u00e3o de uma roda para que fosse dada uma esp\u00e9cie de grito de guerra. A atitude despertou o \u00e2nimo de alguns e o desconforto e riso de outros.<\/p>\n<p>\u201cAqui os<span>\u00a0<\/span><span class=\"il\">invasores<\/span><span>\u00a0<\/span>est\u00e3o rindo de voc\u00eas do governo, e n\u00e3o de n\u00f3s. N\u00f3s podemos muito bem fazer guerra contra os posseiros. T\u00e1 na m\u00e3o de voc\u00eas, quem tem que correr s\u00e3o voc\u00eas\u201d, alertou o professor e cacique Genivaldo Tapit\u00e3wa, um dos \u00faltimos a falar antes do fim da reuni\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/apublica.org\/2019\/08\/tapirape-defendem-territorio-de-invasores-por-conta-propria\/?\">*Conte\u00fado publicado originalmente no site da Ag\u00eancia P\u00fablica<\/a><\/p>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/exame.abril.com.br\/brasil\/tribo-indigena-do-mt-defende-territorio-de-invasores-por-conta-propria\/\">Fonte do artigo <\/a><br \/>\nTags:<br \/>\n#politica #political #negocios #business #marketingdigital #empreendedorismo #marketing #emprendedores #empreender #sucesso #empresas #emprendimiento #emprendedor #empreendedor #emprender #dinheiro #dinero #empresario #vendas #liderazgo #motivacion #foco #motivacao #negocio #brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os\u00a0Tapirap\u00e9, nome pelo qual \u00e9 conhecido o povo ind\u00edgena Apy\u00e3wa, est\u00e3o cansados de esperar a lei dos brancos. H\u00e1 16 anos eles aguardam a Justi\u00e7a expulsar aqueles que desmatam seu\u00a0territ\u00f3rio, a Terra Ind\u00edgena (TI) Urubu Branco, localizada a cerca de 30 km da cidade mato-grossense de Confresa. 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