{"id":17056,"date":"2023-02-26T15:29:20","date_gmt":"2023-02-26T18:29:20","guid":{"rendered":"https:\/\/wiy.com.br\/noticias\/historia-feminina-do-samba-reflete-o-machismo-na-sociedade-brasileira\/"},"modified":"2019-04-13T06:06:25","modified_gmt":"2019-04-13T09:06:25","slug":"historia-feminina-do-samba-reflete-o-machismo-na-sociedade-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wiy.com.br\/noticias\/historia-feminina-do-samba-reflete-o-machismo-na-sociedade-brasileira\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria feminina do samba reflete o machismo na sociedade brasileira"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>\nRIO &#8211; No princ\u00edpio era a mulher. O mito da cria\u00e7\u00e3o do samba conta que ele nasceu em torno de uma delas, a grande m\u00e3e Tia Ciata \u2014 na verdade uma das muitas tias (quase todas) baianas que articulavam organicamente pela cidade uma rede negra, (afro)religiosa, de batuques e saberes em suas casas. Era nesse espa\u00e7o de encontro, entre a festa e o rito, que se deu a alquimia que viria a resultar no samba. O que n\u00e3o impediu que ao longo de sua hist\u00f3ria o g\u00eanero refletisse o machismo da organiza\u00e7\u00e3o patriarcal da sociedade brasileira \u2014 machismo expresso n\u00e3o s\u00f3 na invisibiliza\u00e7\u00e3o de artistas mulheres (ainda uma realidade, como mostra a reportagem de Marina Gon\u00e7alves nesta edi\u00e7\u00e3o), como nos versos das can\u00e7\u00f5es.\n<\/p>\n<p>\nApesar da lideran\u00e7a ineg\u00e1vel que exerciam em suas comunidades e especificamente no contexto do samba, mulheres como Ciata \u2014 e mais tarde outras como Surica e Doca (na Portela), ou Neuma e Zica (na Mangueira) \u2014 n\u00e3o tinham direito \u00e0 voz ativa no discurso art\u00edstico, nas letras de m\u00fasica. Nas escolas de samba, assumiam pap\u00e9is coadjuvantes, apesar de fundamentais, de pastoras ou baianas (matriarcas portadoras da tradi\u00e7\u00e3o, remetendo \u00e0s origens do g\u00eanero), dilu\u00eddas na coletividade. Ou, com aten\u00e7\u00e3o individual, como figuras de beleza, da gra\u00e7a feminina, reflexo de um olhar masculino: porta-bandeiras, destaques ou passistas. Nas rodas de samba, sua fun\u00e7\u00e3o era mais agregadora e relacionada com o entorno do samba (a organiza\u00e7\u00e3o dos encontros, a comida que era servida ali) do que com a m\u00fasica propriamente dita. &#8220;Pagode do Vav\u00e1&#8221;, de Paulinho da Viola, \u00e9 precisa ao documentar esse cen\u00e1rio, como cr\u00f4nica: &#8220;Provei do famoso feij\u00e3o da Vicentina\/ S\u00f3 quem \u00e9 da Portela \u00e9 que sabe que a coisa \u00e9 divina&#8221;.<\/p>\n<figure class=\"article__picture article__picture--horizontal\"><img title = \"[Tags]\"class=\"article__picture-image\" data-src=\"https:\/\/ogimg.infoglobo.com.br\/in\/23596243-c90-769\/FT1086A\/652\/xA-tia.jpg.pagespeed.ic.dmR7xZPfXp.jpg\"alt = \"xA-tia.jpg.pagespeed.ic.dmR7xZPfXp Hist\u00f3ria feminina do samba reflete o machismo na sociedade brasileira\"\/><figcaption class=\"article__picture-caption\">Hil\u00e1ria Batista de Almeida (1854-1924), conhecida como Tia Ciata Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<\/p>\n<p>\nComo o discurso n\u00e3o era dela, a mulher aparecia nas letras fundamentalmente como musa, sedutora \u2014 o que muitas vezes era sin\u00f4nimo de trai\u00e7oeira. Noel Rosa, por exemplo, cantou em &#8220;Mentiras de mulher&#8221;: &#8220;Se algu\u00e9m vai pro cemit\u00e9rio\/ \u00c9 porque levou a s\u00e9rio\/ As palavras da mulher&#8221;. O compositor retoma o tema em &#8220;Pra que mentir&#8221; (&#8220;Se tu ainda n\u00e3o tens a mal\u00edcia de toda mulher?&#8221;). Em &#8220;Mulher indigesta&#8221;, ele foi ainda mais longe: &#8220;Mas que mulher indigesta\/ Merece um tijolo na testa&#8221;. Numa sociedade que considerava \u2014 ainda mais do que hoje \u2014 a viol\u00eancia dom\u00e9stica como um comportamento aceit\u00e1vel e uma quest\u00e3o \u00edntima, que competia apenas ao casal, era poss\u00edvel que surgissem versos como &#8220;L\u00e1 vem ela\/ Chorando\/ O que \u00e9 que ela quer\/ Pancada n\u00e3o \u00e9, j\u00e1 dei\/ Mulher da orgia\/ Quando come\u00e7a a chorar\/ Quer dinheiro\/ Dinheiro n\u00e3o h\u00e1\/ Carinho eu tenho demais pra vender e pra dar\/ Pancada tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 de faltar&#8221;.\n<\/p>\n<section class=\"block block--advertising\">\n<\/section>\n<p>\n\u00a0\n<\/p>\n<p>\nAs &#8220;pancadas&#8221; n\u00e3o eram raras. Moreira da Silva cantava: &#8220;Na subida do morro me contaram\/ que voc\u00ea bateu na minha nega\/ Isso n\u00e3o \u00e9 direito\/ Bater numa mulher que n\u00e3o \u00e9 sua&#8221;. Heitor dos Prazeres louvou a &#8220;Mulher de malandro&#8221; (&#8220;Mulher de malandro sabe ser\/ Carinhosa de verdade\/ Ela vive com tanto prazer\/ Quanto mais apanha a ele tem amizade&#8221;). Os exemplos v\u00eam at\u00e9 mais recentemente. Lan\u00e7ada em 1999, &#8220;Faixa amarela&#8221;, sucesso na voz de Zeca Pagodinho, listava agress\u00f5es: &#8220;Mas se ela vacilar\/ Vou dar um castigo nela\/ Vou lhe dar uma banda de frente\/ Quebrar cinco dentes e quatro costelas&#8221;.\n<\/p>\n<p>\nO machismo n\u00e3o se limitava apenas \u00e0 agress\u00e3o f\u00edsica. Ele aparecia no louvor a modelos de mulher como &#8220;Am\u00e9lia&#8221; (&#8220;\u00c0s vezes passava fome ao meu lado\/ E achava bonito n\u00e3o ter o que comer\/ &#8230;\/ Am\u00e9lia que era mulher de verdade\/ Am\u00e9lia n\u00e3o tinha a menor vaidade&#8221;). Ou, em oposi\u00e7\u00e3o, na condena\u00e7\u00e3o \u00e0 mulher representada por &#8220;Maria Rosa&#8221; (&#8220;Voc\u00eas est\u00e3o vendo aquela mulher de cabelos brancos\/ Vestindo farrapos, cal\u00e7ando tamancos\/ Pedindo nas portas peda\u00e7os de p\u00e3o?\/ &#8230;\/ Os trapos de sua veste n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 necessidade\/ Cada um representa para ela uma saudade\/ De um vestido de baile ou de um presente, talvez\/ Que algum dos seus apaixonados lhe fez\/ &#8230;\/ Voc\u00eas marias de agora, amem somente uma vez\/ Pra que mais tarde esta capa n\u00e3o sirva em voc\u00eas&#8221;).\n<\/p>\n<section class=\"block block--advertising\">\n<\/section>\n<p>\nSe as compositoras eram (e ainda s\u00e3o) em n\u00famero bem menor do que os homens no mesmo campo, ao longo de todo o s\u00e9culo XX o samba foi representado por vozes femininas. Aracy de Almeida, Elizeth Cardoso (especialmente no disco &#8220;Elizeth sobe o morro&#8221;), Clementina de Jesus, Beth Carvalho, Clara Nunes, Dorina, Teresa Cristina e Mart&#8217;n\u00e1lia e muitas outras garantiram visibilidade para o g\u00eanero, seja nos ve\u00edculos de massa ou na guerrilha dos palcos menores.\n<\/p>\n<p>\n\u00a0\n<\/p>\n<p>\nA entrada de mulheres compositoras em cena, marcadamente a pioneira Dona Ivone Lara, abriu outro espa\u00e7o para a voz feminina. Importante lembrar que a imperiana \u2014 cujos primeiros sambas eram apresentados na escola por seu primo, Mestre Fuleiro, como se fossem dele \u2014 foi a primeira a ter um samba-enredo no Grupo Especial (&#8220;Os cinco bailes da hist\u00f3ria do Rio&#8221;, em 1965),\u00a0 mas antes dela Carmelita Brasil j\u00e1 havia composto para a Unidos da Ponte.\n<\/p>\n<p>\nNa d\u00e9cada seguinte, Leci Brand\u00e3o se tornaria a primeira mulher a entrar na ala de compositoras da Mangueira, j\u00e1 representando outra fase da vida social brasileira. Ativista e l\u00edder comunit\u00e1ria (ela se tornaria deputada em 2010, filiada ao PCB), ela unia em seu discurso a perspectiva feminina, a conscientiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e a valoriza\u00e7\u00e3o das matrizes religiosas e culturais afrobrasileiras. &#8220;Z\u00e9 do Caro\u00e7o&#8221; (sobre um her\u00f3i, lideran\u00e7a da favela), um cl\u00e1ssico do seu repert\u00f3rio, \u00e9 bastante representativo de sua postura.\n<\/p>\n<section class=\"block block--advertising\">\n<\/section>\n<p>\nUma figura feminina fundamental para o rumo que o samba tomaria a partir dos anos 1990 \u2014 especialmente na forma\u00e7\u00e3o da gera\u00e7\u00e3o Lapa, em torno de bares como Semente \u2014 foi Cristina Buarque. Cantora e amante do samba, seu conhecimento enciclop\u00e9dico da mem\u00f3ria do g\u00eanero fez dela um p\u00f3lo em torno do qual bebiam jovens como Pedro Miranda. A partir daquela gera\u00e7\u00e3o que vicejou sob os Arcos, do refortalecimento do samba junto \u00e0 classe m\u00e9dia universit\u00e1ria (com novas rodas e eventos como o Trem do Samba), o surgimento de espa\u00e7os de difus\u00e3o livres da preponder\u00e2ncia masculina (como a Escola Port\u00e1til de M\u00fasica) e o pr\u00f3prio movimento da mulher na sociedade brasileira nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas criaram as bases para que surgisse a gera\u00e7\u00e3o de instrumentistas, cantoras e compositoras que se apresentam no Dia da Mulher Sambista.\n<\/p>\n<p>\n\u00a0\n<\/p>\n<p>\nA percep\u00e7\u00e3o do lugar da mulher no samba hoje e a consci\u00eancia ativa da constru\u00e7\u00e3o desse lugar pode ser ilustrada, de maneiras diferentes, em dois sambas surgidos nos \u00faltimos anos \u2014 num contexto cr\u00edtico a todo o hist\u00f3rico machista do g\u00eanero (e, vale refor\u00e7ar, do Brasil que existe para al\u00e9m das fronteiras das rodas). Um \u00e9 a vers\u00e3o feminista de &#8220;Mulheres&#8221; (samba de Toninho Geraes consagrado por Marinho da Vila), feita pelo grupo Samba Que Elas Querem: &#8220;Mulheres cabe\u00e7a e muito equilibradas\/ Ningu\u00e9m t\u00e1 confusa, n\u00e3o te perguntei nada\/ S\u00e3o elas por elas\/ Escuta esse samba que eu vou te cantar&#8221;. Outro exemplo \u00e9 a letra original de &#8220;Mil r\u00e9is&#8221;, de Candeia, recuperada por Teresa Cristina (que a ouviu de Noca da Portela). Na forma como o compositor a gravou, o homem se dirige a mulher acusando-a: &#8220;Tentarei te esquecer, perdida\/ Perdida, porque n\u00e3o honraste o homem&#8221;). Na \u2014 arrepiante \u2014 vers\u00e3o lembrada por Teresa, a voz \u00e9 da mulher: &#8220;Tentarei te esquecer, sentida\/ Sentida, porque tu n\u00e3o foste homem&#8221;.\n<\/p>\n<\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/cultura\/celina\/historia-feminina-do-samba-reflete-machismo-na-sociedade-brasileira-23590749\">Fonte do Artigo <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>RIO &#8211; No princ\u00edpio era a mulher. O mito da cria\u00e7\u00e3o do samba conta que ele nasceu em torno de uma delas, a grande m\u00e3e Tia Ciata \u2014 na verdade uma das muitas tias (quase todas) baianas que articulavam organicamente pela cidade uma rede negra, (afro)religiosa, de batuques e saberes em suas casas. 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