{"id":12588,"date":"2023-02-26T14:56:16","date_gmt":"2023-02-26T17:56:16","guid":{"rendered":"https:\/\/wiy.com.br\/noticias\/a-ciencia-precisa-de-liberdade\/"},"modified":"2019-03-24T10:53:08","modified_gmt":"2019-03-24T13:53:08","slug":"a-ciencia-precisa-de-liberdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wiy.com.br\/noticias\/a-ciencia-precisa-de-liberdade\/","title":{"rendered":"A ci\u00eancia precisa de liberdade"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>\n<strong>Por Cesar Baima<\/strong>\n<\/p>\n<p>\n\u201cSe eu vi mais longe, foi por estar de p\u00e9 nos ombros de gigantes\u201d. A frase, escrita por Isaac Newton, um dos maiores g\u00eanios da Hist\u00f3ria, em carta endere\u00e7ada ao rival Robert Hooke em 1675, e baseada em d\u00edstico do fil\u00f3sofo franc\u00eas do s\u00e9culo XII Bernard de Chartres, \u00e9 uma bela met\u00e1fora de como o avan\u00e7o da ci\u00eancia \u00e9 mais resultado da constru\u00e7\u00e3o do conhecimento pela Humanidade ao longo do tempo do que de descobertas isoladas ou inspira\u00e7\u00f5es pessoais.\n<\/p>\n<p>\nPara isso, no entanto, o conhecimento deve circular. E novamente Newton pode servir de exemplo. Apesar da famosa lenda da ma\u00e7\u00e3 caindo enquanto descansava sob uma \u00e1rvore \u2013 sem comprova\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica \u2013 que lhe teria servido de inspira\u00e7\u00e3o, a verdade \u00e9 que n\u00e3o fosse a dissemina\u00e7\u00e3o da teoria helioc\u00eantrica de Cop\u00e9rnico e das leis da din\u00e2mica orbital de Kepler, entre outros achados anteriores, o g\u00eanio ingl\u00eas dificilmente teria desenvolvido sua Teoria da Gravita\u00e7\u00e3o Universal, no que foi a primeira formaliza\u00e7\u00e3o matem\u00e1tica de uma das quatro for\u00e7as fundamentais da natureza (que incluem ainda o eletromagnetismo e as nucleares forte e fraca).\n<\/p>\n<p>\nDissemina\u00e7\u00e3o esta que foi propiciada principalmente pela inven\u00e7\u00e3o da prensa m\u00f3vel por Gutemberg, cerca de 200 anos antes. Seu advento acabou com as limita\u00e7\u00f5es impostas pela necessidade de se copiar a m\u00e3o cada exemplar de um livro, dando uma din\u00e2mica at\u00e9 ent\u00e3o impens\u00e1vel \u00e0 circula\u00e7\u00e3o do conhecimento que se traduziu em novas ideias e vis\u00f5es do mundo.\n<\/p>\n<p>\nAssim, nestes tempos de internet, em que um universo de informa\u00e7\u00f5es est\u00e1 \u00e0 dist\u00e2ncia de um clique, seria de se esperar que o conhecimento circulasse com uma liberdade e velocidade espantosas, fomentando e inspirando avan\u00e7os na ci\u00eancia a um ritmo inimagin\u00e1vel em outras \u00e9pocas.\n<\/p>\n<section class=\"block block--advertising\">\n<\/section>\n<p>\nMas n\u00e3o \u00e9 esta a realidade. Trancadas atr\u00e1s dos paywalls de algumas das publica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas de maior prest\u00edgio do mundo, muitas descobertas e novas ideias permanecem inacess\u00edveis a boa parte dos pesquisadores ao redor do planeta e t\u00eam sua dissemina\u00e7\u00e3o contida, num sistema especialmente prejudicial aos pesquisadores de pa\u00edses pobres e em desenvolvimento, que muitas vezes n\u00e3o conseguem acessar os pr\u00f3prios estudos nas ocasi\u00f5es em que conseguem \u201cemplac\u00e1-los\u201d nestes incensados peri\u00f3dicos.\n<\/p>\n<h2>Universidade da Calif\u00f3rnia cancela assinaturas<\/h2>\n<p>\nO problema come\u00e7a com o pre\u00e7o das assinaturas. Em alguns casos, o valor pode chegar a milhares de d\u00f3lares anuais, que multiplicados pelas \u00e0s vezes dezenas de peri\u00f3dicos dedicados a uma \u00e1rea, outros tantos ainda mais especializados e alguns mais \u201cgen\u00e9ricos\u201d, acabam por torn\u00e1-los invi\u00e1veis, mesmo para institui\u00e7\u00f5es \u201cricas\u201d de pa\u00edses desenvolvidos. \u00c9 o caso, por exemplo, do sistema Universidade da Calif\u00f3rnia, nos EUA.\n<\/p>\n<p>\nNo fim de fevereiro, a institui\u00e7\u00e3o, que tem dez campi espalhados pelo estado americano, anunciou o cancelamento de todas suas assinaturas de peri\u00f3dicos cient\u00edficos editados pela Elsevier, uma das gigantes do setor. A decis\u00e3o foi rea\u00e7\u00e3o ao fracasso das negocia\u00e7\u00f5es em que a Universidade da Calif\u00f3rnia procurava garantir livre acesso global aos estudos publicados nos peri\u00f3dicos da Elsevier pelos seus pesquisadores, que respondem por cerca de 10% de toda produ\u00e7\u00e3o de conhecimento dos EUA, ao mesmo tempo que reduzir os custos das assinaturas para o sistema, de \u201cmuitos milh\u00f5es de d\u00f3lares\u201d anuais.\n<\/p>\n<section class=\"block block--advertising\">\n<\/section>\n<p>\n&#8211; N\u00e3o se enganem: os pre\u00e7os dos peri\u00f3dicos cient\u00edficos hoje s\u00e3o t\u00e3o altos que nenhuma universidade dos EUA, nem a Universidade da Calif\u00f3rnia, nem Harvard, nenhuma institui\u00e7\u00e3o, pode arcar com assinar todos \u2013 resumiu Jeffrey MacKie-Mason, bibliotec\u00e1rio e professor de economia da Universidade da Calif\u00f3rnia em Berkeley e copresidente da equipe de negocia\u00e7\u00e3o da institui\u00e7\u00e3o com a Elsevier. &#8211; Publicar nossa produ\u00e7\u00e3o de conhecimento atr\u00e1s de um paywall impede as pessoas de acessar e se beneficiar de pesquisas financiadas com dinheiro p\u00fablico. Isto \u00e9 terr\u00edvel para a sociedade.\n<\/p>\n<p>\nSegundo a Universidade da Calif\u00f3rnia, a Elsevier n\u00e3o concordou com um contrato \u201crazo\u00e1vel\u201d que integrava as assinaturas e as taxas cobradas pela editora para que os estudos fossem de livre acesso, o que permitiria que a facilidade se tornasse padr\u00e3o nas publica\u00e7\u00f5es pelos pesquisadores da institui\u00e7\u00e3o e daria estabilidade aos custos dos peri\u00f3dicos para o grupo universit\u00e1rio.\n<\/p>\n<p>\nMas a busca da Universidade da Calif\u00f3rnia para que o conhecimento produzido pelos seus pesquisadores seja de livre acesso a cientistas, e p\u00fablico, de todo mundo, em especial o resultante de pesquisas financiadas com dinheiro dos contribuintes, \u00e9 apenas um dos mais recentes movimentos neste sentido no planeta.\n<\/p>\n<figure class=\"article__picture article__picture--horizontal\"><img title = \"[Tags]\"class=\"article__picture-image\" data-src=\"https:\/\/ogimg.infoglobo.com.br\/in\/23546712-7b1-d9b\/FT1086A\/652\/ximagem-logo-elife.jpg.pagespeed.ic.c4iaX-5IqH.jpg\"alt = \"ximagem-logo-elife.jpg.pagespeed.ic.c4iaX-5IqH A ci\u00eancia precisa de liberdade\"\/><figcaption class=\"article__picture-caption\">Logo da publica\u00e7\u00e3o de acesso aberto eLife Foto: eLife<\/figcaption><\/figure>\n<p>\n\u00a0\n<\/p>\n<section class=\"block block--advertising\">\n<\/section>\n<h2>Ag\u00eancias de fomento impulsionam iniciativas<\/h2>\n<p>\nA campanha pelo livre acesso a pesquisas ganhou \u00edmpeto a partir de 2012, quando o Instituto M\u00e9dico Howard Hughes, a Sociedade Max Planck e o Wellcome Trust, tr\u00eas das maiores funda\u00e7\u00f5es privadas de fomento da ci\u00eancia do mundo, anunciaram a cria\u00e7\u00e3o do eLife, peri\u00f3dico cient\u00edfico online de acesso aberto que concentraria a publica\u00e7\u00e3o de estudos financiados por elas. Capitaneado at\u00e9 recentemente por Randy Schekman, laureado com o Pr\u00eamio Nobel de Medicina de 2013, o eLife cresceu e estabeleceu um novo padr\u00e3o para publica\u00e7\u00f5es para al\u00e9m do \u201cfator de impacto\u201d t\u00e3o cobi\u00e7ado por muitos cientistas que buscam ver suas pesquisas nos peri\u00f3dicos fechados mais prestigiados, com diversos outros ganhadores do Nobel se comprometendo a s\u00f3 publicar suas pesquisas l\u00e1 ou em outras iniciativas do tipo.\n<\/p>\n<p>\nE \u00e9 com a mudan\u00e7a de mentalidade na pr\u00f3pria comunidade cient\u00edfica sobre a import\u00e2ncia dada a estes fatores de impacto dos peri\u00f3dicos proporcionada pelo eLife que o movimento pelo livre acesso continua a crescer. Assim, em setembro do ano passado, 11 ag\u00eancias de fomento europeias que investem cerca de US$ 9 bilh\u00f5es anuais em pesquisas lan\u00e7aram o \u201cPlano S\u201d, segundo o qual at\u00e9 o ano que vem todos estudos feitos com seus recursos devem ter acesso aberto assim que publicados. A iniciativa prontamente ganhou ades\u00e3o do Conselho Europeu de Pesquisas, o bra\u00e7o de fomento da Uni\u00e3o Europeia que investe outros cerca de US$ 5 bilh\u00f5es anuais em ci\u00eancia.\n<\/p>\n<section class=\"block block--advertising\">\n<\/section>\n<p>\nJ\u00e1 aqui no Brasil, o destaque na \u00e1rea \u00e9 a plataforma Scielo. Fruto de pareceria da Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa de S\u00e3o Paulo (Fapesp) com o Centro Latino-Americano e do Caribe de Informa\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias da Sa\u00fade (Bireme), a biblioteca eletr\u00f4nica lan\u00e7ada em 1998 acumula hoje quase 600 mil artigos de mais de 1,2 mil peri\u00f3dicos com livre acesso, estando presente em 14 pa\u00edses. E o movimento continua, com a pr\u00f3pria Fapesp, maior funda\u00e7\u00e3o estadual de fomento da ci\u00eancia do pa\u00eds, anunciando recentemente nova pol\u00edtica em que todos os trabalhos resultantes, total ou parcialmente, de projetos e bolsas financiados por ela devem ser divulgados em peri\u00f3dicos que permitam o arquivamento de uma c\u00f3pia em um reposit\u00f3rio p\u00fablico como o Scielo.\n<\/p>\n<p>\nMas ainda h\u00e1 um longo caminho a percorrer para que a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica mundial se torne de livre acesso total. De acordo com levantamento da base de dados cient\u00edficos Scopus feito por um grupo de universidades brit\u00e2nicas, em 2016 37,7% dos peri\u00f3dicos cient\u00edficos editados no mundo ainda eram de acesso completamente fechado, apenas para assinantes, com 2,2% proporcionando livre acesso aos artigos ap\u00f3s um per\u00edodo de \u201cquarentena\u201d, 45% adotando um modelo \u201ch\u00edbrido\u201d, com acesso restrito nos seus sites, mas permitindo aos autores manter c\u00f3pias de livre acesso, e s\u00f3 15,2% de livre acesso. Avan\u00e7o frente aos respectivamente 49,2%, 2,1%, 36,2% e 12,4% observados em 2012, mas pouco para que todos os cientistas do mundo tenham a oportunidade de subir nos ombros de qualquer gigante.\n<\/p>\n<section class=\"block block--advertising\">\n<\/section>\n<p>\n&#8211; O caminho para o acesso aberto nas universidades, e no mundo, est\u00e1 sendo constru\u00eddo h\u00e1 algum tempo \u2013 destacou Ivy Anderson, vice-diretora-executiva da Biblioteca Digital do grupo Universidade da Calif\u00f3rnia e a outra copresidente da equipe de negocia\u00e7\u00e3o com a Elsevier. &#8211; Muitas institui\u00e7\u00f5es e pa\u00edses concordam que o sistema atual \u00e9 tanto insustent\u00e1vel quanto mal adaptado \u00e0s atuais necessidades dos esfor\u00e7os globais de pesquisa. O livre acesso vai fomentar o avan\u00e7o mais r\u00e1pido e melhores pesquisas, al\u00e9m de uma maior igualdade no acesso a novos conhecimentos.\n<\/p>\n<\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/epoca.globo.com\/a-ciencia-precisa-de-liberdade-23546697\">Fonte do Artigo <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Cesar Baima \u201cSe eu vi mais longe, foi por estar de p\u00e9 nos ombros de gigantes\u201d. 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